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Mostrando postagens de 2016

Ipês XLV. [Apêndice] Túmulo

TÚMULO Modesta cruz de pau numa clareira, Onde pipilem trêfegos sanhaços; Modesta, sim, mas que uma trepadeira, Para enfeitá-la, cinja-lhe os dois braços. E que eu repouse ali, na hospitaleira Sombra do bosque, livre de cansaços, Como quem, pelas horas da soalheira, Foge da estrada aos cálidos mormaços. Ei-lo, o túmulo simples que ambiciono Para deitar a carne fatigada, Para dormir o derradeiro sono. Como serei feliz no meu jazigo! Aves, flores, a mata embalsamada, E eu a dormir, eu a sonhar contigo... 1905 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 147-148. Ortografia atualizada.

Ipês XLIV. [Apêndice] O Cigarro

O CIGARRO Fumo um cigarro, acompanhando atento As espirais macabras da fumaça, Que sobe para o teto, e se adelgaça, E perde-se afinal pelo aposento. E enquanto ulula, fora, a voz do vento, Seguindo o rendilhado que ela traça, No coração não sei o que se passa, Mas adormeço as mágoas um momento. Oh! quantos sonhos, quantas maravilhas O perfumado fumo das Antilhas Faz-me sonhar em noites hibernais! Dá-me de novo o que eu perdido havia, Dá-me de novo os sonhos e a poesia Daqueles tempos que não voltam mais. 1902 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 145-146. Ortografia atualizada.

Ipês XLIII. [Apêndice] Historieta

HISTORIETA Quando a alma é todo um tesouro De ilusões, de sonhos belos, Erguendo airosos castelos, Amaste um príncipe louro! Como um pajem das baladas Era esbelto e sobranceiro, Tinha a altivez de um guerreiro E usava esporas douradas. Mas tu, radiosa criança, Com ele não foste à igreja, Pois que nunca a gente alcança Aquilo que mais deseja. E eu disse num tom profundo: ─ “Oh! devaneios cruéis! São muito raros no mundo Os príncipes e os donzéis. Donzel do louro cabelo, Áureo sonho de menina, Que nunca a sorte mofina Te converta em pesadelo!” Depois, tendo o peito em lavas, Amaste furiosamente Um dandy bem diferente Do príncipe que sonhavas. Mas o “leão” que era o mais lindo Mancebo da fina roda, Morreu mais tarde vestindo Um fato fora da moda. E eu disse num tom profundo: “Amai, amai, corações! Ao mundo das ilusões Não chegam vozes do mundo. Ó peralvilho modelo, Sonho de moça e menina, Que nunca a sorte mofina Te converta em pesadelo!” Pa...

Ipês XLII. [Apêndice] Visão

VISÃO Na rósea nuvem de um sonho, Chegas. Minh’alma te vê... Mas, a visão doce e casta Rapidamente se afasta, Sem que tu saibas por quê... Foge... e logo sobre a alma Pesado manto de treva A dor estende minaz. E essa nuvem que te traz, A mesma nuvem te leva... Não quero que me visites, Meu descorado jasmim, Quando nesta luta insana, Feroz alcateia humana, Vocifera junto a mim... Mas só, no meu quarto, à noite, Fico instantes que nem sei... Haurindo o aroma celeste Das flores que tu me deste E dos beijos que te dei. 1899 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 139-140. Ortografia atualizada.

Ipês XLI. [Apêndice] Só

SÓ Que noite, santo Deus! A espaços relampeja, E retumbam trovões. Colo o rosto à vidraça: Na rua cenagosa e triste ninguém passa, Atra melancolia o céu plúmbeo poreja. E eu, tão longe de ti... sozinho, no remanso Da alcova, enquanto fora estronda a tempestade, Sinto dentro do peito, a soluçar, de manso, Queixoso, o bandolim de uma estranha saudade!... 1904 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 137. Ortografia atualizada.

Ipês XL. [Apêndice] Primeiro Amor

PRIMEIRO AMOR A asa que passa, num celeste arpejo, O nome teu repete, ó linda flor! E conta a história do primeiro beijo À luz do sol, ao doce aroma e à cor. Primeiro beijo do primeiro amor, Que acalentar as nossas almas veio, Mas, que partiu depois, partiu... Maldade, Maldoso amor! deixando-nos no seio O áspide venenoso, que é a saudade. A serpe venenosa e traidora Abandonou-me em lânguido repouso.                 Dorme agora Em nossos corações fartos de gozo. Porém, oh sim! há de acordar um dia, Quando sentirmos a asa do desejo Cantar numa celeste melodia A doce história do primeiro beijo. E então, nesse momento, a asa que passa, E a luz do sol, e o doce aroma, e a cor, Repetirão talvez com terna graça A louca história do primeiro amor. 1898 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 135-136. Ortografia atualizada.

Ipês XXXIX. [Apêndice] Olhos Pretos

OLHOS PRETOS Teus grandes olhos pretos e formosos, Teus grandes olhos são como dois lagos, Onde nadam desejos voluptuosos, Onde boiam volúpicos afagos. Na travessia destes procelosos Mares da vida, escuros e pressagos, Teus grandes olhos pretos e formosos São para mim a estrela dos Reis Magos. Sol, auroras, crepúsculos e luares Recebem sua luz dos teus olhares, Que são a luz dos meus febris sonetos. E eu, se ainda tenho risos para a vida, É que eu a vejo, doce flor querida, Pela pupila dos teus olhos pretos! 1900 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 131-132. Ortografia atualizada.

Ipês XXXVIII. [Apêndice] "Tesoro Mio"

"TESORO MIO" Valsa de Ernesto Becucci Por que será que as doces melodias            Que brotam do teclado, Levam minh'alma aos venturosos dias, Aos venturosos dias do passado? Vem-me de longe mágica fragrância Que a um tempo venturoso me transporta, Doce ilusão da minha doce infância, Doce ilusão há tanto tempo morta! Ouço na igreja o bimbalhar do sino. Perseguem-me andorinhas no telhado. Ó meus dias felizes de menino, Ó santas ilusões do meu passado! Para onde foi esse viver risonho, Essa ave de oiro que em meu peito havia, A repetir baixinho, noite e dia, A cavatina módula do sonho? De amores tive o peito constelado: Eu era pequenino, ela pequena; Ó santinha do altar do meu passado, Ó perfume das noites de novena! E as lembranças dulcíssimas da infância Para minha saudade redivivas, Surgem nos horizontes, à distância, Como um bando de pombas fugitivas. 1900 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 131-132. Ortografia atualiza...

Ipês XXXVII. [Apêndice] No Minarete

NO “MINARETE” Pela janela um céu de maio. Leve Perfume de jasmins. Rechina um carro. Contemplo o rendilhado que descreve No espaço o fumo azul do meu cigarro. Lá fora, aos bambuais segreda o vento Uma doce balada comovida. Oh! repousa afinal meu pensamento: Não penso em cousa alguma desta vida. Tenho uma ideia negra? Logo a varro Do cérebro e de súbito ela passa Como passam as nuvens do cigarro. Dolce far niente ! O pensamento agora É leve como as nuvens de fumaça, Como as nuvens do fumo se evapora. 1903 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 129-130. Ortografia atualizada. Nota: Minarete foi o nome dado por Ricardo Gonçalves ao chalé amarelo da rua 21 de Abril, no bairro do Belenzinho, São Paulo, em cuja parte superior ele, Godofredo Rangel, Monteiro Lobato e outros estudantes residiram durante cerca de dois anos. O grupo recebeu de seus membros o nome de Cenáculo , mas ficou conhecido também como Grupo do Minarete. Os altos do chalé haviam sido alugados e...

Ipês XXXVI. [Apêndice] Aves de Arribação

AVES DE ARRIBAÇÃO Um dia, pelo inverno, os passarinhos, Aos primeiros palores da alvorada, Abandonam em doida revoada A tepidez plumosa de seus ninhos. Deixam a antiga habitação, de arminhos E de penas finíssimas forrada, E vão-se para longe dos caminhos, Através da floresta embalsamada. Ó aves descuidosas e felizes Que o benéfico sol da primavera Demandais noutros climas e países, Aves de arribação, trêfego bando, Eu também vou partir... mas quem me dera, Mas quem me dera ir como vós cantando! 1904 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 127-128. Ortografia atualizada.

Ipês XXXV. [Apêndice] O Pombo

O POMBO O sabiá titubeante e a juriti plangente, A rola e o tangará, no seio redolente Da mata secular, em prazenteiro bando, Cantam ao vir do sol ou quando o sol no poente   Vai aos poucos tombando. Depois, se a noite chega, e ao longo dos caminhos Soluçam noitibós, as aves de seus ninhos Vão buscar o aconchego e a tepidez macia, Sem ver que a chuva cai... felizes passarinhos!   E que a noite é sombria. Lá fora o vento agita as franças do arvoredo, E a mata é silenciosa e o céu é torvo e tredo; A rola está em seu ninho, e os filhotes lá estão, Pode a chuva cair, que as aves não têm medo   Da chuva e do tufão. Nasce o dia porém e acordam na floresta Mil rumores sutis num frêmito de festa. O sol aponta ao longe, além da serra, além... E o grito dos anuns e os da araponga mesta   Anunciá-lo vêm. Rumores de cascata à sombra hospitaleira De alto jequitibá, de frondosa mangueira, A frescur...

Ipês XXXIV. [Apêndice] Alvuras

ALVURAS Os colonos na faina da capina Cantam além, num cafezal formado. Rincha um carro de bois. Vem do intrincado Seio da mata o som de uma buzina. Com virginais alvuras de noivado, Na encosta pitoresca da colina, Fulgem ao sol, que a todas ilumina, As casinholas brancas do povoado. Bimbalham sinos religiosamente Na capelinha branca. Há muita gente De rosto compungido em cada porta. E, à luz do sol, que rútilo cintila, Vai pela rua principal da vila O esquife branco de uma noiva morta. 1900 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 121-122. Ortografia atualizada.

Ipês XXXIII. [Apêndice] Jequitibá

JEQUITIBÁ Nesta chapada verde em que teu vulto impera, Hoje de cada moita uma voz se levanta Para cantar a vida; e a vida em cada planta, A vida em cada arbusto, esplêndida, exubera. Porém, tu já morreste. Embalde a primavera Volta e, para saudá-la, a natureza canta. Que importa se teu vulto a passarada espanta! Que importa, velho rei, se o machado te espera?! Morreste! Nunca mais, como nos tempos idos, Verás na primavera os teus galhos floridos, Terás como tiveste arvoredo copado. E tu já foste rei de uma antiga floresta, E hoje, inválido e só, nem ao menos te resta Um sabiá que te cante as canções do passado. 1900 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 119-120. Ortografia atualizada.

Ipês XXXII. [Apêndice] Passeio

PASSEIO Vamos pelos atalhos divagando. Vamos bem devagar, tão de mansinho Que, em nos vendo passar, a ave do ninho Ponha a cabeça fora e fique olhando. Que as borboletas, num iriado bando, E o buliçoso e arisco passarinho, Em nos vendo passar pelo caminho, Continuem nas moitas adejando. Iremos, passo a passo, olhar perdido, Tu, segurando a cauda do vestido, Eu, aparando a palha de um cigarro. E, na volta, se virmos casualmente Com seu carro de bois o tio Vicente, Voltaremos de pândega no carro. 1901 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 117-118. Ortografia atualizada.

Ipês XXXI. [Apêndice] Manhã

MANHÃ Densa neblina envolve a serrania. Vem nascendo a manhã. Débeis rumores Partem da mata em férvida alegria, Partem da mata a transbordar de flores. Canta na roça, onde a araponga pia, A alegre turma dos capinadores. O sol de maio, rútilo, irradia, E faz da terra um prisma de mil cores. Gorjeiam aves, sacudindo o orvalho, Cortam do espaço o límpido arrebol, E vão pousar bem longe, noutro galho. Da névoa o manto dissipou-se agora; Cheio da messe a lourejar ao sol, Rechina um carro pela estrada afora. 1903 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 115-116. Ortografia atualizada. Nota: Este poema abre a terceira parte do livro Ipês , "Apêndice", em que se arrolam os primeiros poemas que Ricardo Gonçalves compôs. Eis a nota dos editores à parte final do livro: APÊNDICE NOTA Ricardo Gonçalves nasceu em 1883 e muito cedo revelou-se poeta. Aos quatorze anos já deu fortes mostras da sua sensibilidade estética, em versos imperfeitos quanto à forma, emb...

Ipês XXX. Traduções: "Os Elefantes" de L. de Lisle

OS ELEFANTES Leconte de Lisle O areal infinito é como um rubro oceano, Que resplandece, mudo, em seu leito espraiado. Ondula, imoto, o céu cor de cobre, do lado Do horizonte em que habita o formigueiro humano. Nem rumor e nem vida... O leão, farto, descansa No antro afastado, em meio aos matagais infindos. Vai beber a girafa esguia à fonte mansa, Que a pantera conhece, ao pé dos tamarindos. Dorme tudo. Sequer um pássaro no ar quente, No ar em que gira um sol de fogo, um sol em chama... Às vezes, com volúpia, adormida serpente Faz ondular, morosa, a rutilante escama. O ar inflamado queima. O calor é mais denso. E, bamboleando a massa ─ intrépidos viajantes, Rumo do ermo natal, pelo deserto imenso, Vão-se, num bando escuro, os tardos elefantes. Vêm eles do horizonte ensanguentado e quieto, Vêm levantando o pó, que em nuvem grossa ondeia, E, para não sair do caminho mais reto, Desmoronam com a pata os cômoros de areia. Velho chefe, talvez, é o que à frente cam...

Ipês XXIX. Traduções: "Sonhos Mortos" de L. de Lisle

SONHOS MORTOS Leconte de Lisle Olha, amigo: este mar, que ora assim vês tão manso, Bateu, como um aríete, um dia, sem descanso, Os promontórios; foi aos saltos, em cachões, Escalando, subindo as rochas e sobre elas Estendeu a bramir, no fragor das procelas, O espumoso lençol dos negros vagalhões. Agora o encrespa a fresca brisa matutina. A beleza do sol as águas ilumina E longe, em direção desse horizonte infindo, Onde passam, nadando, embarcações remotas, Vai-se da costa azul, o páramo cindindo, Em trêmula revoada, um bando de gaivotas... Ali boiam, porém, contornando os ilhéus, Destroços de naufrágio; e esses que os escarcéus Assassinaram vão, sob as ondas pesadas, Lívidos, a sangrar, de costas ou de bruços, A boca aberta transbordante de soluços, Olhos vítreos, olhando as águas sossegadas. Meu coração é como esse mar que, tranquilo, Beija as praias agora em doce murmurilo. Também chorou, rugiu como ele... Sem descanso Contra as rochas lançou-se em tremen...