O POMBO
O sabiá titubeante e a juriti plangente,
A rola e o tangará, no seio redolente
Da mata secular, em prazenteiro bando,
Cantam ao vir do sol ou quando o sol no poente
Vai aos poucos tombando.
Depois, se a noite chega, e ao longo dos caminhos
Soluçam noitibós, as aves de seus ninhos
Vão buscar o aconchego e a tepidez macia,
Sem ver que a chuva cai... felizes passarinhos!
E que a noite é sombria.
Lá fora o vento agita as franças do arvoredo,
E a mata é silenciosa e o céu é torvo e tredo;
A rola está em seu ninho, e os filhotes lá estão,
Pode a chuva cair, que as aves não têm medo
Da chuva e do tufão.
Nasce o dia porém e acordam na floresta
Mil rumores sutis num frêmito de festa.
O sol aponta ao longe, além da serra, além...
E o grito dos anuns e os da araponga mesta
Anunciá-lo vêm.
Rumores de cascata à sombra hospitaleira
De alto jequitibá, de frondosa mangueira,
A frescura da mata e o livre espaço infindo,
Que existência feliz... que existência fagueira,
Ai, que viver tão lindo!
Mas o pequeno mundo de pequenos entes,
De avezinhas gentis que vivem tão contentes,
Vê afinal com terror chegar à mata um dia
De caçadores vis ─ monstros surpreendentes ─
Luzida companhia.
Soluça a juriti, canta a araponga mesta,
Cheias da inspiração que a luz do sol empresta.
Saltitando gentil e sacudindo o orvalho,
Uma pobre viuvinha, uma viuvinha lesta
Voa de galho em galho.
Mas, súbito, o arrulhar tão doce e apaixonado
Da juriti, que chama o companheiro amado
Para as lutas do amor, ressoa além... distante...
E o pombinho feliz, gentil Romeu alado,
Parte no mesmo instante.
Parte, bem longe paira. O doce arrulho cala.
Reboa de repente um estampido e a bala,
Que parte do fuzil, vai ríspida esfuziando,
Folhas derruba ao ramo e rápida resvala
Num corpo miserando.
E agora do pombinho inanimado jaz
O delicado vulto. E nunca... oh! nunca mais,
A floresta há de ouvir o seu cantar saudoso
Quando, à tardinha, vão as aves, aos casais,
Em busca do seu pouso.
1900
Ricardo Gonçalves
Ipês, 1921, p. 123-125. Ortografia atualizada.
O sabiá titubeante e a juriti plangente,
A rola e o tangará, no seio redolente
Da mata secular, em prazenteiro bando,
Cantam ao vir do sol ou quando o sol no poente
Vai aos poucos tombando.
Depois, se a noite chega, e ao longo dos caminhos
Soluçam noitibós, as aves de seus ninhos
Vão buscar o aconchego e a tepidez macia,
Sem ver que a chuva cai... felizes passarinhos!
E que a noite é sombria.
Lá fora o vento agita as franças do arvoredo,
E a mata é silenciosa e o céu é torvo e tredo;
A rola está em seu ninho, e os filhotes lá estão,
Pode a chuva cair, que as aves não têm medo
Da chuva e do tufão.
Nasce o dia porém e acordam na floresta
Mil rumores sutis num frêmito de festa.
O sol aponta ao longe, além da serra, além...
E o grito dos anuns e os da araponga mesta
Anunciá-lo vêm.
Rumores de cascata à sombra hospitaleira
De alto jequitibá, de frondosa mangueira,
A frescura da mata e o livre espaço infindo,
Que existência feliz... que existência fagueira,
Ai, que viver tão lindo!
Mas o pequeno mundo de pequenos entes,
De avezinhas gentis que vivem tão contentes,
Vê afinal com terror chegar à mata um dia
De caçadores vis ─ monstros surpreendentes ─
Luzida companhia.
Soluça a juriti, canta a araponga mesta,
Cheias da inspiração que a luz do sol empresta.
Saltitando gentil e sacudindo o orvalho,
Uma pobre viuvinha, uma viuvinha lesta
Voa de galho em galho.
Mas, súbito, o arrulhar tão doce e apaixonado
Da juriti, que chama o companheiro amado
Para as lutas do amor, ressoa além... distante...
E o pombinho feliz, gentil Romeu alado,
Parte no mesmo instante.
Parte, bem longe paira. O doce arrulho cala.
Reboa de repente um estampido e a bala,
Que parte do fuzil, vai ríspida esfuziando,
Folhas derruba ao ramo e rápida resvala
Num corpo miserando.
E agora do pombinho inanimado jaz
O delicado vulto. E nunca... oh! nunca mais,
A floresta há de ouvir o seu cantar saudoso
Quando, à tardinha, vão as aves, aos casais,
Em busca do seu pouso.
1900
Ricardo Gonçalves
Ipês, 1921, p. 123-125. Ortografia atualizada.
QUÊ QUE É ISSO !!!
ResponderExcluirP. QUE PARIU !!!
VIRO UM OURIÇO
P'LA CEGUEIRA DO BRAZIU...
Como nunca , até há pouco tempo , eu soube da existência desse nosso rico poeta !
Como posso fazer festa ?
Merecemos um tiro na testa !!!
Pois é, mais um poeta desconhecido. Em SP ele é menos desconhecido, pois era talentoso e até apareceu em algumas antologias; além disso, muitos de seus contemporâneos (como Monteiro Lobato) conservaram a memória dele por algum tempo. Sua morte foi trágica: suicidou-se por motivo amoroso.
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