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Ipês XII. A Cisma do Caboclo

A CISMA DO CABOCLO

A Valdomiro Silveira

Cisma o caboclo à porta da cabana.
Declina o sol, mas, rúbido, espadana
               Ondas fulvas de luz.
No terreiro, entre espigas debulhadas,
Arrulham, perseguindo-se a bicadas,
               Dois casais de pombinhos parirus.

A criação de penas se empoleira;
Come a ração no cocho da mangueira
               Um velho pangaré.
E uma vaca leiteira e bois de carro
Pastam junto à casinha, que é de barro,
               Coberta de sapé.

Longe, uma tropa trota pela estrada.
E a viração das matas, impregnada
               De perfumes sutis,
Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade,
O soturno queixume de saudade
               Das pombas juritis.

Cisma o caboclo. Pensa na morena
Que vira numa noite de novena
               Orando ao pé do altar.
Que vira... e que, por mal de seus pecados,
Tinha os olhos profundos e rasgados
               E um riso de matar.

Branco, de fofos, era o seu vestido.
E ele, ao vê-la, sentindo-se ferido
               Em pleno coração,
Baixinho suspirou: “Nossa Senhora!
Ai, meu São Bom Jesus de Pirapora
               Da minha devoção!”

Depois não se conteve e, num fandango,
Furtou-lhe um beijo aos lábios de morango
               O diabo do rapaz.
E ela volveu zangada: “Malcriado!
Seu vigário já disse que é pecado,
               Aquilo não se faz!...”

E o caboclo medita. O sol em chama
Como agora há pouquinho não derrama
               Ondas fulvas de luz.
O córrego soluça, a noite desce,
E vem dos capoeirões onde anoitece
               O trilo vesperal dos inambus.

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 43-45. Ortografia atualizada.

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