UMA CRIANÇA
Graciosa e pequenina,
Que lindo o seu cabelo ondeado e loiro!
A mãe beija-lhe a boca purpurina,
Que a filha, essa menina,
É todo o seu tesoiro.
A graça que tem ela
Unida a uma expressão mimosa e casta!
Olhar em que a bondade se revela;
E a meiguice, pois que para ser bela
A perfeição não basta!
No absconso pardieiro
Triste, que a luz do sol jamais procura,
A pobrezinha canta o dia inteiro.
É como um passarito prisioneiro
Numa gaiola escura.
Como um canário canta,
A sua doce voz beija e consola,
E à cantiga que sai dessa garganta,
O sol, um sol piedoso se levanta,
Aquecendo a modesta casinhola.
A santa mãe, que fervorosa prece,
Costurando, solícita, murmura,
Ante a voz infantil que anima e aquece,
Fica extática a ouvir e até se esquece
De que a persegue imensa desventura.
Absorta, os olhos úmidos de pranto,
Escuta a meiga e trêmula balada:
Ergue-se então e, interrompendo o canto,
Fecha-lhe a boca rubra e delicada
Num beijo sacrossanto.
Mas ah! Se ela soubesse
O destino da ingênua criatura
Que os seus dias tristíssimos aquece,
Com que fervor alevantara a prece
Que seu lábio murmura!
E tu, se num olhar doce e profundo
Desses teus olhos ― úmidas safiras ―
Pudesses ter num rápido segundo
A visão das misérias deste mundo,
Decerto não sorriras!
O pai que fora expulso da oficina
Vivendo na taberna,
A velha mãe tão doente, tão franzina!
Ai! que será de ti, pobre menina,
Quando te falte a proteção materna!
Graciosa e pequenina,
Que lindo o seu cabelo ondeado e loiro!
A mãe beija-lhe a boca purpurina,
Que a filha, essa menina,
É todo o seu tesoiro.
A graça que tem ela
Unida a uma expressão mimosa e casta!
Olhar em que a bondade se revela;
E a meiguice, pois que para ser bela
A perfeição não basta!
No absconso pardieiro
Triste, que a luz do sol jamais procura,
A pobrezinha canta o dia inteiro.
É como um passarito prisioneiro
Numa gaiola escura.
Como um canário canta,
A sua doce voz beija e consola,
E à cantiga que sai dessa garganta,
O sol, um sol piedoso se levanta,
Aquecendo a modesta casinhola.
A santa mãe, que fervorosa prece,
Costurando, solícita, murmura,
Ante a voz infantil que anima e aquece,
Fica extática a ouvir e até se esquece
De que a persegue imensa desventura.
Absorta, os olhos úmidos de pranto,
Escuta a meiga e trêmula balada:
Ergue-se então e, interrompendo o canto,
Fecha-lhe a boca rubra e delicada
Num beijo sacrossanto.
Mas ah! Se ela soubesse
O destino da ingênua criatura
Que os seus dias tristíssimos aquece,
Com que fervor alevantara a prece
Que seu lábio murmura!
E tu, se num olhar doce e profundo
Desses teus olhos ― úmidas safiras ―
Pudesses ter num rápido segundo
A visão das misérias deste mundo,
Decerto não sorriras!
O pai que fora expulso da oficina
Vivendo na taberna,
A velha mãe tão doente, tão franzina!
Ai! que será de ti, pobre menina,
Quando te falte a proteção materna!
Ricardo Gonçalves
Ipês, 1921, p. 55-57. Ortografia atualizada.
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