Pular para o conteúdo principal

Ipês X. Fazenda Velha

FAZENDA VELHA

Neste retiro os longos dias passo,
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.

Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.

À orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.

Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frondes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.

Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.

Há sussurros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jiçara.

E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 37-39. Ortografia atualizada.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Artigo sobre Ricardito e fac-símile em PDF de "Ipês"

Mafuá , revista de literatura em meio digital da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), publicou um artigo de Samanta Rosa Maia sobre Ricardo Gonçalves, disponibilizando também uma cópia em formato PDF (fac-similar) de Ipês. O artigo e o PDF de Ipês estão disponíveis através do atalho abaixo: https://mafua.ufsc.br/2015/a-scisma-do-caboclo/ Boa leitura!

Ipês XII. A Cisma do Caboclo

A CISMA DO CABOCLO A Valdomiro Silveira Cisma o caboclo à porta da cabana. Declina o sol, mas, rúbido, espadana                Ondas fulvas de luz. No terreiro, entre espigas debulhadas, Arrulham, perseguindo-se a bicadas,                Dois casais de pombinhos parirus. A criação de penas se empoleira; Come a ração no cocho da mangueira                Um velho pangaré. E uma vaca leiteira e bois de carro Pastam junto à casinha, que é de barro,                Coberta de sapé. Longe, uma tropa trota pela estrada. E a viração das matas, impregnada                De perfumes sutis, Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade, O soturno queixume de saudade                Das pombas juritis. Cisma o caboclo. Pensa na morena Que ...

Ipês XVIII. O Rio

O RIO Para as crianças das escolas Rio sonoro que as planícies banha E enche de rumorejos a floresta ― Foi seu berço uma rocha na montanha, Teve uma origem simples e modesta. Era, em começo, um tímido regato De meiga voz e de água cristalina: Desalterava os pássaros no mato, Beijava o caule às flores na campina. As andorinhas leves e graciosas Molhavam na corrente as asas pretas, E roçavam por ele, buliçosas, Numa doce carícia, as borboletas. Vez em quando, uma inquieta saracura, Saindo, cautelosa, do brejal, Da sua face luminosa e pura Mirava-se no límpido cristal. Assim cresceu, e agora, sem descanso, Rega os campos, fecunda as plantações E ora coleia preguiçoso e manso, Ora estronda em profundos boqueirões. E rubro ― quando o sol tinge o horizonte, Alvo ― do plenilúnio à luz tranquila, Marulha sob os arcos de uma ponte, Reflete as casas brancas de uma vila. Leva a abundância ao lar dos pescadores, Move engenhos, carrega embarcações E desliza entre...