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Ipês IX. Manhãs de Outrora

MANHÃS DE OUTRORA

Antes que o sol, em pleno céu, mais quente,
Esgarçasse da bruma a leve trama,
Eu me quedava preguiçosamente
Sob os lençóis, na tepidez da cama.

Invadiam-me o quarto, pelas frestas,
A doce luz pulverizada e loura,
O matinal sussurro das florestas,
O bulício das terras de lavoura;

Gritos de apelo em prolongado entono,
Carros de bois rinchando nos caminhos,
A cantiga singela de um colono,
A matinada estrídula dos ninhos;

Ladrar de cães e vozes abafadas,
Coinchos, berros, balidos, cacarejos,
E, acompanhando o ritmo das enxadas,
Uma triste canção de sertanejos...

Depois, o sol limpava os céus nevoentos,
E então, fugindo à ardência dos seus raios,
Passavam para a serra, barulhentos,
Taralhando febris, os papagaios.

E eu pensava nas formas tão perfeitas
Daquela esquiva moça veneziana,
Que vira na labuta das colheitas,
E amava, como um doido, há uma semana.

Olhos tristes, saudosos de outros climas,
A boca pequenina ― uma framboesa,
Voz de cristal a debulhar-se em rimas,
― Colona, parecia uma princesa!

Não tinha mais frescura a madrugada
Nem mais vivo esplendor que o riso dela
Quando, esbelta, fugia, arrebatada
Na vertigem veloz da tarantela!

E eu punha-me a sonhar: “Ventura a minha,
Se por acaso um dia lhe beijasse
O til vermelho vivo da boquinha,
A cetinosa púrpura da face”.

Mas batiam à porta: “O sol vai alto!
Acorda, preguiçoso!” E, à voz amiga,
Eu, resoluto, erguia-me de um salto,
Gorjeando alegremente uma cantiga.

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 33-35. Ortografia atualizada.

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