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Ricardito


Reprodução de fotografia e assinatura de
Ricardito em sua obra póstuma IPÊS (1921).
Ricardo Mendes Gonçalves nasceu na cidade de São Paulo em 8 de agosto de 1883. Era filho de Eduardo Mendes Gonçalves, paulista – de uma família originária do arquipélago da Madeira e havia anos já enraizada em São Paulo –, e Julieta Ramos, natural do Paraná. O casal conheceu-se em Curitiba, quando Eduardo trabalhou na construção da Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba. Ricardo teve seis irmãos: Luiz, Asdrúbal, Aníbal, Roberto, Amílcar e Maninha, esta falecida ainda criança.

O pai de Ricardo era engenheiro e exerceu mandato de deputado federal na Assembleia Constituinte de 1891, que elaborou a primeira constituição da República. Depois da curta carreira política, Eduardo Gonçalves retomou suas atividades de engenheiro; a família morou também algum tempo em Ribeirão Preto, no interior do estado de SP, onde o pai de Ricardo administrou uma fazenda. Foi lá que Ricardito – era como o tratavam na intimidade a família e os amigos, conforme conta Monteiro Lobato – passou a infância, tomando contato com a cultura interiorana e caipira que mais tarde descreveria em vários de seus poemas.

No início do século XX, o jovem Ricardo, ao participar da vida intelectual e boêmia da cidade de São Paulo – e bem antes de matricular-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atualmente parte da Universidade de São Paulo, USP) –, conheceu Monteiro Lobato, Godofredo Rangel e outros estudantes que com ele comporiam o grupo conhecido como Cenáculo. Rangel morava nos altos de um sobrado, um chalezinho amarelo na rua 21 de Abril, no bairro do Belenzinho, e os demais foram pouco a pouco mudando-se para o local, que se tornou república estudantil.

Ricardo deu ao sobrado o nome de Minarete, que foi logo adotado como nome "oficial" da residência do grupo de estudantes; o Cenáculo ficou também conhecido como Grupo do Minarete ou, ainda, Cainçalha. Os membros da Cainçalha tinham apelidos ou alcunhas: Ricardo era conhecido como "Cão Lírico que Ladra à Lua". Escreveu também sob os pseudônimos Bruno de Cádiz e D. Ricardito.

Ricardo Gonçalves matriculou-se na Faculdade de Direito em 1905. No ano seguinte, 1906, passou um tempo no Sul de Minas Gerais, onde teria visto a dança dos tangarás, que ele imortalizou no poema de mesmo nome; ou, segundo outra fonte, ele a teria presenciado depois em São José dos Campos. Neste mesmo ano, participou de uma greve de ferroviários em São Paulo e saiu ferido com um tiro num braço.

De acordo com Hardman (2002, p. 129-130), Ricardo teve alguns contatos próximos com o movimento anarquista; registra-se seu comparecimento e participação com discursos ou poemas em comícios e festas de propaganda. Lopreato (2010, p. 110) informa sobre a publicação de poemas dele, de cunho político, em periódicos anarquistas, mesmo após sua morte.

Esteve na Itália de 1907 a 1908. Em 1909, já de volta ao Brasil, participa ativamente do Congresso de Estudantes em São Paulo. Em 1912 conclui o curso e passa a exercer a advocacia na capital paulista.

Em 1916 é eleito vereador à Câmara Municipal de São Paulo. Planejava a reunião de seus poemas em livro, mas não teve tempo de alcançar o fim almejado.

Motivado por uma desilusão amorosa, suicidou-se com um tiro em 11 de outubro de 1916, no Hotel Brasil, bairro do Brás. Foi sepultado no cemitério da Consolação.

Em 1921, após recolher os poemas originais e traduções de Ricardo Gonçalves dispersos em cadernos de amigos, álbuns de memórias e jornais e revistas, Monteiro Lobato edita e publica a primeira e (até hoje) única edição de IPÊS.

Poemas de Ricardito foram publicados em antologias, como a Antologia da Poesia Paulista, em 1960.

Na cidade de São Paulo, um escola recebeu seu nome: Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Ricardo Gonçalves, situada na Praça Tcheco, s/n, Vila Ipojuca, Zona Oeste (http://www.escol.as/193615-ricardo-goncalves).

Em Ribeirão Preto, SP, cidade onde o poeta viveu sua infância, o Ato nº 005, de 28 de agosto de 1957, deu o nome de Ricardo Gonçalves a uma praça no Bosque Fábio Barreto.

Fontes consultadas:

BARBOSA, Alaor. Um Cenáculo na Paulicéia: Um estudo sobre Monteiro Lobato, Godofredo Rangel, José Antônio Nogueira, Ricardo Gonçalves, Raul de Freitas e Albino de Camargo. Brasília: Projecto Editorial, 2002.

GONÇALVES, Carlos Eduardo Mendes. História da Família. Mendes Gonçalves – Portal da Família. São Paulo, outono de 2006. Disponível em: <http://www.mendesgoncalves.com.br/historia.htm>. Acesso em: 30 de agosto de 2016.

GONÇALVES, Ricardo. Ipês: Versos. Prefácio de Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia. Editores, [1921].

HARDMAN, Francisco Foot. Nem Pátria, nem Patrão!: Memória operária, cultura e literatura no Brasil. 3. ed. rev. ampl. São Paulo: Editora Unesp, 2002.

LOPREATO, Christina da Silva Roquette. O Espírito da Revolta: a greve geral anarquista de 1917. São Paulo: Annablume, 2000.

MELO, Luís Correia de. Dicionário de Autores Paulistas. São Paulo: Comissão do IV Centenário, 1954.

MEMORIAL 0075A. Ricardo Mendes Gonçalves. Biografia. Disponível em: <http://www.memoriall.com.br/0075A#.V-7CdogrIdV>. Acesso em: 30 de setembro de 2016.

RIBEIRÃO PRETO (Município). Ato nº 5, de 28 de agosto de 1957. Dá nome de "Ricardo Gonçalves" a uma praça interna do Bosque Municipal "Fabio Barreto". Disponível em: <http://www.ribeiraopreto.sp.gov.br/J321/pesquisa.xhtml;jsessionid=d6a04a355fff283ff14fb3f8d925?leiImpressao=29148>. Acesso em: 30 de setembro de 2016.

SILVA, Domingos Carvalho da; RIBEIRO NETO, Oliveira; RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Orgs.). Antologia da Poesia Paulista. São Paulo: Comissão Estadual de Literatura, Conselho Estadual de Cultura, 1960.

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