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Ipês VIII. De Manhã

DE MANHÃ

A Godofredo Rangel

Atiro para os ombros um capote,
Monto a cavalo e sigo estrada afora.
Ri-se, corando meigamente, a aurora,
Entre nuvens de fogo e chamalote.

Anda por tudo um frenesi de festa.
Cindindo a bruma leve dos espaços,
Vão-se trêfegos bandos de sanhaços
Para o Te Deum Laudamus da floresta.

Descem as caipirinhas para a fonte,
Vão-se para a capina os camaradas,
E há cantigas de amor, doces toadas,
Num cafezal que sobe pelo monte.

Penetro numa rústica vereda
Junto às límpidas águas de um regato,
― Trêmula fita rútila de seda ―
Que vai torcicolando pelo mato.

O céu azul parece de veludo,
A relva tem cambiantes de ametista,
E o rio, a ponte, as perobeiras, tudo,
Que pábulo divino para a vista!

Encontro um caçador junto ao caminho
Negaceando os “nambus”: má catadura,
A tiracolo a bolsa e o polvarinho,
Chapéu de palha e faca na cintura.

Agora é uma paineira ressoante
Da garrulice matinal dos ninhos,
Em cuja fronde enorme e vicejante
Há flores, borboletas, passarinhos.

Aqui, por uma aberta da espessura,
Vejo dos tangarás a alegre dança,
Uma orquídea de um tronco se pendura,
Um pica-pau num galho se balança.

Depois de uma porteira é um descampado;
Sobe aos ares o fumo de uma choça;
Passa um homem por mim: vai para a roça,
Pés descalços, camisa de riscado.

Caminho mais. O sol abre a pupila
No alto dos céus, e já bem perto avulta,
Entre paineiras altas, semioculta,
A branca torre da matriz da vila.

Vêm para a missa grupos campesinos,
Rincha um carro moroso pela estrada,
Enquanto vibra na manhã doirada
O festival repinicar dos sinos.

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 29-32. Ortografia atualizada.

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