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Ipês XVII. A Árvore

A ÁRVORE

Para as crianças das escolas

Salta do leito e vem cá fora,
Vem ver esta árvore, sonora
De murmurinhos e canções.
O sol nascente a afaga e beija,
E as suas frondes purpureja
Com seus vivíssimos clarões.

Anda-lhe em torno, álacre, um vivo
Zumbir de insetos; pelo crivo
Das folhas verdes fulge o sol;
E entre cortinas viridentes,
Zinem cigarras estridentes,
Tecem aranhas o aranhol.

Depois, a pino, o sol escalda,
E a sua copa de esmeralda
É como um pálio protetor,
A cuja sombra, ampla e divina,
Cantam as aves, em surdina,
Cantos dulcíssimos de amor.

Ama-a! ― toda a árvore é sagrada ―
Ama esta esplêndida morada
De abelhas de ouro e aves gentis!
Busca entender tanta poesia,
E faze coro à sinfonia
Da natureza, que a bendiz!

Ama-a, na glória matutina,
Entre os vapores da neblina,
Que toda a envolvem, como véus,
Cheia dos prantos da alvorada,
Ou melancólica, estampada
No oiro e na púrpura dos céus...

E reza então: “Bendita sejas
Por tuas frondes benfazejas,
Pelos teus cânticos triunfais,
Por tuas flores e perfumes,
Pelos teus pássaros implumes,
Por tuas sombras maternais”.

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 59-61. Ortografia atualizada.

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