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Ipês XXXVII. [Apêndice] No Minarete

NO “MINARETE”

Pela janela um céu de maio. Leve
Perfume de jasmins. Rechina um carro.
Contemplo o rendilhado que descreve
No espaço o fumo azul do meu cigarro.

Lá fora, aos bambuais segreda o vento
Uma doce balada comovida.
Oh! repousa afinal meu pensamento:
Não penso em cousa alguma desta vida.

Tenho uma ideia negra? Logo a varro
Do cérebro e de súbito ela passa
Como passam as nuvens do cigarro.

Dolce far niente! O pensamento agora
É leve como as nuvens de fumaça,
Como as nuvens do fumo se evapora.

1903

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 129-130. Ortografia atualizada.

Nota:

Minarete foi o nome dado por Ricardo Gonçalves ao chalé amarelo da rua 21 de Abril, no bairro do Belenzinho, São Paulo, em cuja parte superior ele, Godofredo Rangel, Monteiro Lobato e outros estudantes residiram durante cerca de dois anos. O grupo recebeu de seus membros o nome de Cenáculo, mas ficou conhecido também como Grupo do Minarete.

Os altos do chalé haviam sido alugados em 1902 por Godofredo Rangel, que para lá se mudou, seguido pelos demais, compondo-se assim a república estudantil.

Este poema foi composto nessa época.

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