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Ipês XXXI. [Apêndice] Manhã

MANHÃ

Densa neblina envolve a serrania.
Vem nascendo a manhã. Débeis rumores
Partem da mata em férvida alegria,
Partem da mata a transbordar de flores.

Canta na roça, onde a araponga pia,
A alegre turma dos capinadores.
O sol de maio, rútilo, irradia,
E faz da terra um prisma de mil cores.

Gorjeiam aves, sacudindo o orvalho,
Cortam do espaço o límpido arrebol,
E vão pousar bem longe, noutro galho.

Da névoa o manto dissipou-se agora;
Cheio da messe a lourejar ao sol,
Rechina um carro pela estrada afora.

1903

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 115-116. Ortografia atualizada.

Nota:

Este poema abre a terceira parte do livro Ipês, "Apêndice", em que se arrolam os primeiros poemas que Ricardo Gonçalves compôs. Eis a nota dos editores à parte final do livro:


APÊNDICE
NOTA

Ricardo Gonçalves nasceu em 1883 e muito cedo revelou-se poeta. Aos quatorze anos já deu fortes mostras da sua sensibilidade estética, em versos imperfeitos quanto à forma, embora dos mais ricos em poesia espontânea. As produções reunidas neste apêndice são dessa época e para elas chamamos a atenção simpática do leitor, que poderá adquirir uma ideia perfeita da sua evolução poética.

Ipês, 1921, p. 113. Ortografia atualizada. Pontuação ajustada.

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