Pular para o conteúdo principal

Ipês XXXVIII. [Apêndice] "Tesoro Mio"

"TESORO MIO"

Valsa de Ernesto Becucci

Por que será que as doces melodias
           Que brotam do teclado,
Levam minh'alma aos venturosos dias,
Aos venturosos dias do passado?

Vem-me de longe mágica fragrância
Que a um tempo venturoso me transporta,
Doce ilusão da minha doce infância,
Doce ilusão há tanto tempo morta!

Ouço na igreja o bimbalhar do sino.
Perseguem-me andorinhas no telhado.
Ó meus dias felizes de menino,
Ó santas ilusões do meu passado!

Para onde foi esse viver risonho,
Essa ave de oiro que em meu peito havia,
A repetir baixinho, noite e dia,
A cavatina módula do sonho?

De amores tive o peito constelado:
Eu era pequenino, ela pequena;
Ó santinha do altar do meu passado,
Ó perfume das noites de novena!

E as lembranças dulcíssimas da infância
Para minha saudade redivivas,
Surgem nos horizontes, à distância,
Como um bando de pombas fugitivas.

1900

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 131-132. Ortografia atualizada.

Notas:

1- Tesoro Mio é uma valsa de autoria do compositor italiano Ernesto Becucci (1854-1905); creio ser sua mais conhecida e executada composição. Não sei dizer se o poema de Ricardo Gonçalves foi escrito para ajustar-se à melodia de Tesoro Mio ou apenas foi inspirado por ela.

2- No original o nome do compositor consta como Besucci, evidente erro de transcrição dos editores.

3- A partitura de Tesoro Mio pode ser conferida aqui:

4- Neste vídeo do YouTube temos Tesoro Mio com arranjo e execução do acordeonista sueco Alf Hågedal:



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Artigo sobre Ricardito e fac-símile em PDF de "Ipês"

Mafuá , revista de literatura em meio digital da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), publicou um artigo de Samanta Rosa Maia sobre Ricardo Gonçalves, disponibilizando também uma cópia em formato PDF (fac-similar) de Ipês. O artigo e o PDF de Ipês estão disponíveis através do atalho abaixo: https://mafua.ufsc.br/2015/a-scisma-do-caboclo/ Boa leitura!

Ipês XII. A Cisma do Caboclo

A CISMA DO CABOCLO A Valdomiro Silveira Cisma o caboclo à porta da cabana. Declina o sol, mas, rúbido, espadana                Ondas fulvas de luz. No terreiro, entre espigas debulhadas, Arrulham, perseguindo-se a bicadas,                Dois casais de pombinhos parirus. A criação de penas se empoleira; Come a ração no cocho da mangueira                Um velho pangaré. E uma vaca leiteira e bois de carro Pastam junto à casinha, que é de barro,                Coberta de sapé. Longe, uma tropa trota pela estrada. E a viração das matas, impregnada                De perfumes sutis, Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade, O soturno queixume de saudade                Das pombas juritis. Cisma o caboclo. Pensa na morena Que ...

Ipês XVIII. O Rio

O RIO Para as crianças das escolas Rio sonoro que as planícies banha E enche de rumorejos a floresta ― Foi seu berço uma rocha na montanha, Teve uma origem simples e modesta. Era, em começo, um tímido regato De meiga voz e de água cristalina: Desalterava os pássaros no mato, Beijava o caule às flores na campina. As andorinhas leves e graciosas Molhavam na corrente as asas pretas, E roçavam por ele, buliçosas, Numa doce carícia, as borboletas. Vez em quando, uma inquieta saracura, Saindo, cautelosa, do brejal, Da sua face luminosa e pura Mirava-se no límpido cristal. Assim cresceu, e agora, sem descanso, Rega os campos, fecunda as plantações E ora coleia preguiçoso e manso, Ora estronda em profundos boqueirões. E rubro ― quando o sol tinge o horizonte, Alvo ― do plenilúnio à luz tranquila, Marulha sob os arcos de uma ponte, Reflete as casas brancas de uma vila. Leva a abundância ao lar dos pescadores, Move engenhos, carrega embarcações E desliza entre...