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Ipês XLIII. [Apêndice] Historieta

HISTORIETA

Quando a alma é todo um tesouro
De ilusões, de sonhos belos,
Erguendo airosos castelos,
Amaste um príncipe louro!

Como um pajem das baladas
Era esbelto e sobranceiro,
Tinha a altivez de um guerreiro
E usava esporas douradas.

Mas tu, radiosa criança,
Com ele não foste à igreja,
Pois que nunca a gente alcança
Aquilo que mais deseja.

E eu disse num tom profundo:
─ “Oh! devaneios cruéis!
São muito raros no mundo
Os príncipes e os donzéis.

Donzel do louro cabelo,
Áureo sonho de menina,
Que nunca a sorte mofina
Te converta em pesadelo!”

Depois, tendo o peito em lavas,
Amaste furiosamente
Um dandy bem diferente
Do príncipe que sonhavas.

Mas o “leão” que era o mais lindo
Mancebo da fina roda,
Morreu mais tarde vestindo
Um fato fora da moda.

E eu disse num tom profundo:
“Amai, amai, corações!
Ao mundo das ilusões
Não chegam vozes do mundo.

Ó peralvilho modelo,
Sonho de moça e menina,
Que nunca a sorte mofina
Te converta em pesadelo!”

Passou-se algum tempo. Os fados
Levaram-te, flor querida.
Ontem meus olhos pasmados
Encontraram-te na vida.

Não vinhas só. Compassado,
Um sujeito narigudo,
Giboso, torto, ventrudo,
Vi caminhando a teu lado.

Era uma figura suína,
Um monstro informe, um camelo,
O teu sonho de menina
Convertido em pesadelo.

1905

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 141-144. Ortografia atualizada.

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