SONHOS MORTOS
Leconte de Lisle
Olha, amigo: este mar, que ora assim vês tão manso,
Bateu, como um aríete, um dia, sem descanso,
Os promontórios; foi aos saltos, em cachões,
Escalando, subindo as rochas e sobre elas
Estendeu a bramir, no fragor das procelas,
O espumoso lençol dos negros vagalhões.
Agora o encrespa a fresca brisa matutina.
A beleza do sol as águas ilumina
E longe, em direção desse horizonte infindo,
Onde passam, nadando, embarcações remotas,
Vai-se da costa azul, o páramo cindindo,
Em trêmula revoada, um bando de gaivotas...
Ali boiam, porém, contornando os ilhéus,
Destroços de naufrágio; e esses que os escarcéus
Assassinaram vão, sob as ondas pesadas,
Lívidos, a sangrar, de costas ou de bruços,
A boca aberta transbordante de soluços,
Olhos vítreos, olhando as águas sossegadas.
Meu coração é como esse mar que, tranquilo,
Beija as praias agora em doce murmurilo.
Também chorou, rugiu como ele... Sem descanso
Contra as rochas lançou-se em tremendos embates,
Todo um dia cruel de insânia e de combates.
Vês? ─ Agora reflui apaziguado e manso;
Sem desejo ou temor de nova tempestade,
À carícia do sol a voz mal se lhe escuta,
Mas o gênio, a esperança, a força, a mocidade,
Ei-los mortos na espuma e no sangue da luta.
Tradução de Ricardo Gonçalves
Ipês, 1921, p. 105-107. Ortografia atualizada.
Notas:
Les Rêves Morts
Vois! cette mer si calme a comme un lourd bélier
Effondré tout un jour le flanc des promontoires,
Escaladé par bonds leur fumant escalier,
Et versé sur les rocs, qui hurlent sans plier,
Le frisson écumeux des longues houles noires.
Un vent frais, aujourd’hui, palpite sur les eaux,
La beauté du soleil monte et les illumine,
Et vers l’horizon pur où nagent les vaisseaux,
De la côte azurée, un tourbillon d’oiseaux
S’échappe, en arpentant l’immensité divine.
Mais, parmi les varechs, aux pointes des îlots,
Ceux qu’a brisés l’assaut sans frein de la tourmente,
Livides et sanglants sous la lourdeur des flots,
La bouche ouverte et pleine encore de sanglots,
Dardent leurs yeux hagards à travers l’eau dormante.
Ami, ton coeur profond est tel que cette mer
Qui sur le sable fin déroule ses volutes:
Il a pleuré, rugi comme l’abîme amer,
Il s’est rué cent fois contre des rocs de fer,
Tout un long jour d’ivresse et d’effroyables luttes.
Maintenant il reflue, il s’apaise, il s’abat.
Sans peur et sans désir que l’ouragan renaisse,
Sous l’immortel soleil c’est à peine s’il bat;
Mais génie, espérance, amour, force et jeunesse
Sont là, morts, dans l’écume et le sang du combat.
Leconte de Lisle
Olha, amigo: este mar, que ora assim vês tão manso,
Bateu, como um aríete, um dia, sem descanso,
Os promontórios; foi aos saltos, em cachões,
Escalando, subindo as rochas e sobre elas
Estendeu a bramir, no fragor das procelas,
O espumoso lençol dos negros vagalhões.
Agora o encrespa a fresca brisa matutina.
A beleza do sol as águas ilumina
E longe, em direção desse horizonte infindo,
Onde passam, nadando, embarcações remotas,
Vai-se da costa azul, o páramo cindindo,
Em trêmula revoada, um bando de gaivotas...
Ali boiam, porém, contornando os ilhéus,
Destroços de naufrágio; e esses que os escarcéus
Assassinaram vão, sob as ondas pesadas,
Lívidos, a sangrar, de costas ou de bruços,
A boca aberta transbordante de soluços,
Olhos vítreos, olhando as águas sossegadas.
Meu coração é como esse mar que, tranquilo,
Beija as praias agora em doce murmurilo.
Também chorou, rugiu como ele... Sem descanso
Contra as rochas lançou-se em tremendos embates,
Todo um dia cruel de insânia e de combates.
Vês? ─ Agora reflui apaziguado e manso;
Sem desejo ou temor de nova tempestade,
À carícia do sol a voz mal se lhe escuta,
Mas o gênio, a esperança, a força, a mocidade,
Ei-los mortos na espuma e no sangue da luta.
Tradução de Ricardo Gonçalves
Ipês, 1921, p. 105-107. Ortografia atualizada.
Notas:
1- Leconte de Lisle (1818-1894), poeta francês nascido na ilha de Reunião. Foi membro da Academia Francesa. Mais sobre ele aqui (em francês): https://fr.wikipedia.org/wiki/Leconte_de_Lisle.
2- O poema original, "Les Rêves Morts", consta da obra Poèmes Barbares, cuja primeira edição é de 1862. O original é este, conforme a edição de 1889, disponível em Wikisource:
Les Rêves Morts
Vois! cette mer si calme a comme un lourd bélier
Effondré tout un jour le flanc des promontoires,
Escaladé par bonds leur fumant escalier,
Et versé sur les rocs, qui hurlent sans plier,
Le frisson écumeux des longues houles noires.
Un vent frais, aujourd’hui, palpite sur les eaux,
La beauté du soleil monte et les illumine,
Et vers l’horizon pur où nagent les vaisseaux,
De la côte azurée, un tourbillon d’oiseaux
S’échappe, en arpentant l’immensité divine.
Mais, parmi les varechs, aux pointes des îlots,
Ceux qu’a brisés l’assaut sans frein de la tourmente,
Livides et sanglants sous la lourdeur des flots,
La bouche ouverte et pleine encore de sanglots,
Dardent leurs yeux hagards à travers l’eau dormante.
Ami, ton coeur profond est tel que cette mer
Qui sur le sable fin déroule ses volutes:
Il a pleuré, rugi comme l’abîme amer,
Il s’est rué cent fois contre des rocs de fer,
Tout un long jour d’ivresse et d’effroyables luttes.
Maintenant il reflue, il s’apaise, il s’abat.
Sans peur et sans désir que l’ouragan renaisse,
Sous l’immortel soleil c’est à peine s’il bat;
Mais génie, espérance, amour, force et jeunesse
Sont là, morts, dans l’écume et le sang du combat.
In: LECONTE DE LISLE. Poèmes Barbares. Paris: Librairie Alphonse Lemerre, [1889?]. p. 250-251. Disponível em: https://fr.wikisource.org/wiki/Po%C3%A8mes_barbares.
3- Assim como em outras traduções suas, Ricardo Gonçalves recriou o poema original, acrescentando-lhe versos: enquanto o original de Leconte de Lisle tem 25 versos numa só estrofe, a tradução de Ricardo tem 28 versos, distribuídos em 4 estrofes de 6 versos e 2 estrofes de 2 versos.
4- No verso 20, para conseguir a rima desejada, Ricardo lança mão de um sufixo diminutivo raro, -ilo, criando o substantivo murmurilo = "murmurinho".
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