NAVEGANTES
Há homens, doce amada que me escutas,
Que se vão para longe de seus lares,
Através de tormentas e de lutas,
Através de florestas e de mares.
Partem-se eles em busca de riquezas,
Embarcados em frágeis caravelas,
Sem temerem do mar as incertezas,
Sem temerem a fúria das procelas.
Uns levam dentro d'alma angustiada,
Em que soluça o adeus da despedida,
A lembrança da noiva idolatrada,
A saudade da esposa estremecida.
Um, que riquezas e tesouros sonha,
Mesmo através do sonho que o domina,
A paisagem natal bela e risonha
Leva constantemente na retina.
Outros, sem que uma lágrima saudosa
Lhes umedeça a face endurecida,
Deixam por uma vida aventurosa
Uma tranquila e venturosa vida.
E todos têm de rútilas quimeras
A alma povoada; e, águas em fora,
Vão-se as veleiras naus, vão-se as galeras
Para um desconhecido que apavora.
Mares inavegados e bravios ―
A inclemência dos ventos e das vagas,
A princípio; depois... climas doentios
E perniciosos de longínquas plagas;
Fome e sede, calores sufocantes,
Emanações de brejos deletérias,
E a seguir-lhes os passos vacilantes
Um cortejo de dores e misérias...
E vão-se... e um vento fresco de bonança
Trá-los de volta, um dia, à verde enseada,
À verde enseada conhecida e mansa,
Donde partiu a frota empavesada.
E os loucos argonautas atrevidos,
Que se foram em busca de um tesouro,
Voltam desanimados e vencidos,
A alma vazia, as mãos vazias de ouro.
Também eu fiz-me ao largo, assim como eles,
Na minha escuna pelo mar da vida...
Volto... mas onde os sonhos? Onde aqueles
Extraordinários sonhos da partida?
Onde as montanhas de ouro refulgente,
E os bosques de coral e de safira?
Essa região ideada pela mente
Do poeta sonhador que tudo aspira?
Volto, exânime e triste, à bela enseada,
À abra feliz donde parti criança,
E trago a minha nau desarvorada,
Sem a flâmula verde da esperança.
Há homens, doce amada que me escutas,
Que se vão para longe de seus lares,
Através de tormentas e de lutas,
Através de florestas e de mares.
Partem-se eles em busca de riquezas,
Embarcados em frágeis caravelas,
Sem temerem do mar as incertezas,
Sem temerem a fúria das procelas.
Uns levam dentro d'alma angustiada,
Em que soluça o adeus da despedida,
A lembrança da noiva idolatrada,
A saudade da esposa estremecida.
Um, que riquezas e tesouros sonha,
Mesmo através do sonho que o domina,
A paisagem natal bela e risonha
Leva constantemente na retina.
Outros, sem que uma lágrima saudosa
Lhes umedeça a face endurecida,
Deixam por uma vida aventurosa
Uma tranquila e venturosa vida.
E todos têm de rútilas quimeras
A alma povoada; e, águas em fora,
Vão-se as veleiras naus, vão-se as galeras
Para um desconhecido que apavora.
Mares inavegados e bravios ―
A inclemência dos ventos e das vagas,
A princípio; depois... climas doentios
E perniciosos de longínquas plagas;
Fome e sede, calores sufocantes,
Emanações de brejos deletérias,
E a seguir-lhes os passos vacilantes
Um cortejo de dores e misérias...
E vão-se... e um vento fresco de bonança
Trá-los de volta, um dia, à verde enseada,
À verde enseada conhecida e mansa,
Donde partiu a frota empavesada.
E os loucos argonautas atrevidos,
Que se foram em busca de um tesouro,
Voltam desanimados e vencidos,
A alma vazia, as mãos vazias de ouro.
Também eu fiz-me ao largo, assim como eles,
Na minha escuna pelo mar da vida...
Volto... mas onde os sonhos? Onde aqueles
Extraordinários sonhos da partida?
Onde as montanhas de ouro refulgente,
E os bosques de coral e de safira?
Essa região ideada pela mente
Do poeta sonhador que tudo aspira?
Volto, exânime e triste, à bela enseada,
À abra feliz donde parti criança,
E trago a minha nau desarvorada,
Sem a flâmula verde da esperança.
Ricardo Gonçalves
Ipês, 1921, p. 79-82. Ortografia atualizada.
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