Pular para o conteúdo principal

Ipês XIX. A Chuva

A CHUVA

Para as crianças das escolas

Estamos em janeiro.
É todo um atoleiro
O leito das estradas,
E a chuva cai violenta,
Na terra lamacenta,
Em bátegas pesadas.

Há uma tristeza imensa
Por tudo ― e a gente pensa
Que o sol não torna mais,
Após dias inteiros
De rijos aguaceiros,
De rudes temporais.

O olhar pelas alturas
Só vê nuvens escuras...
Exulta o lavrador:
Correi pelas chapadas,
Fecundas enxurradas,
Dilúvio benfeitor!

Justo é que a chuva amiga
O lavrador bendiga:
A chuva lhe vem dar
Mais viço ao arvoredo,
Mais flores ao balsedo,
Mais pomos ao pomar.

Rouco sibile o vento,
Caia do firmamento
A chuva em borbotões;
E desde o vale à serra
Encharque, alague a terra,
Fecunde as plantações.

Nestas rechãs, que agora
A água avassaladora
Cobre como um lençol,
Verdes e farfalhantes,
Os milharais pujantes
Hão de sorrir ao sol.

Justo é que a chuva amiga
O lavrador bendiga:
A chuva lhe vem dar
Mais viço ao arvoredo,
Mais flores ao balsedo,
Mais pomos ao pomar.

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 67-69. Ortografia atualizada.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Artigo sobre Ricardito e fac-símile em PDF de "Ipês"

Mafuá , revista de literatura em meio digital da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), publicou um artigo de Samanta Rosa Maia sobre Ricardo Gonçalves, disponibilizando também uma cópia em formato PDF (fac-similar) de Ipês. O artigo e o PDF de Ipês estão disponíveis através do atalho abaixo: https://mafua.ufsc.br/2015/a-scisma-do-caboclo/ Boa leitura!

Ipês XII. A Cisma do Caboclo

A CISMA DO CABOCLO A Valdomiro Silveira Cisma o caboclo à porta da cabana. Declina o sol, mas, rúbido, espadana                Ondas fulvas de luz. No terreiro, entre espigas debulhadas, Arrulham, perseguindo-se a bicadas,                Dois casais de pombinhos parirus. A criação de penas se empoleira; Come a ração no cocho da mangueira                Um velho pangaré. E uma vaca leiteira e bois de carro Pastam junto à casinha, que é de barro,                Coberta de sapé. Longe, uma tropa trota pela estrada. E a viração das matas, impregnada                De perfumes sutis, Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade, O soturno queixume de saudade                Das pombas juritis. Cisma o caboclo. Pensa na morena Que ...

Ipês XVIII. O Rio

O RIO Para as crianças das escolas Rio sonoro que as planícies banha E enche de rumorejos a floresta ― Foi seu berço uma rocha na montanha, Teve uma origem simples e modesta. Era, em começo, um tímido regato De meiga voz e de água cristalina: Desalterava os pássaros no mato, Beijava o caule às flores na campina. As andorinhas leves e graciosas Molhavam na corrente as asas pretas, E roçavam por ele, buliçosas, Numa doce carícia, as borboletas. Vez em quando, uma inquieta saracura, Saindo, cautelosa, do brejal, Da sua face luminosa e pura Mirava-se no límpido cristal. Assim cresceu, e agora, sem descanso, Rega os campos, fecunda as plantações E ora coleia preguiçoso e manso, Ora estronda em profundos boqueirões. E rubro ― quando o sol tinge o horizonte, Alvo ― do plenilúnio à luz tranquila, Marulha sob os arcos de uma ponte, Reflete as casas brancas de uma vila. Leva a abundância ao lar dos pescadores, Move engenhos, carrega embarcações E desliza entre...