DO “CYRANO DE BERGERAC”
Edmond Rostand
ATO I, CENA IV
CYRANO
Elegâncias? também as tenho... moralmente.
Se não me enfeito como um fofo peralvilho,
Sou mais limpo, apesar de ser menos casquilho.
Nunca ninguém me viu, tendo, por negligência,
O coração manchado ou manchada a consciência.
Levando a Dignidade andrajosa e rasgada,
Ou alguma afronta que não fosse bem lavada.
Sim. Tudo em mim reluz, refulge. Intemerato,
A Franqueza e a Lealdade, eis as plumas de ornato
Que ostento no chapéu. Não é um talhe bem feito:
É minh'alma que eu trago esbelta, que endireito
E aprumo como quem aprumasse a estatura;
Em vez de laços, tenho ações de alta bravura;
E, assim como o bigode, o espírito cofiando,
Os grupos atravesso e, entre eles, agitando
As verdades brutais que tinem como esporas.
ATO I, CENA V
CYRANO
Oh! dize que esperança eu posso ter com tal
Superdesmesurado apêndice nasal?
Não me iludo. A minh'alma, às vezes, se enternece
Na hora azul em que a tarde expira e a noite desce...
Penetro num jardim: que perfumes sutis
Haure este malfadado, este pobre nariz!
É abril, o doce mês... passam dois namorados,
Um casal, junto a mim... eu os vejo enlaçados
E penso que também poderia trazer
Suspenso de meu braço um corpo de mulher...
Um vulto feminil que em meu braço descansa...
Um beijo... uma carícia... o aroma de uma trança...
E esqueço-me de tudo, e não sei o que penso,
E, de repente, vejo estampar-se, ai de mim!
A sombra colossal do meu nariz imenso
No muro do jardim.
LE BRET (comovido)
Meu pobre amigo!...
CYRANO
Sim! sou bem digno de dó,
Sentindo-me tão feio, às vezes, e tão só!
Tu não podes saber quanto sofro... que de horas
Amargas e cruéis! que suplício!
LE BRET
Tu choras?
CYRANO
Não, chorar, isso não! seria tão grotesco
A lágrima a rolar no dorso gigantesco
Do meu pobre nariz!... Jamais consentiria
Essa enorme abjeção, tamanha grosseria!
A lágrima! não há nada mais belo, nada,
E eu não quero que em mim provoque a gargalhada.
ATO II, CENA IV
RAGUENEAU
Maneira de fazer pastéis de amêndoa (*)
Com três ovos — cada clara
Bem batida, uma por uma,
Se prepara
Uma xícara de espuma
Branca e leve qual se fosse
Neve pura; põe-se então,
Com leite de amêndoa doce,
Quinze gotas de limão.
Depois se bate e adelgaça,
Visando-se obra perfeita,
Fina massa
Que se deita
Numas formas especiais.
E em cada pastel, brocado
Lado a lado,
Põe-se a espuma e nada mais.
Os pastéis assim obtidos
São no forno muito quente,
Docemente,
Com cautela introduzidos.
Espera-se um pouco e, após,
Na bandejinha que os trouxe,
Enfileiram-se ante nós
Os pastéis de amêndoa doce.
(1904)
ATO III, CENA VIII
CYRANO
Mas que fazer então?
Buscar um protetor poderoso, um patrão?
Ser como a hera que enlaça o carvalho robusto,
E lambe-lhe a cortiça e trepa então sem custo?
Usar, para atingir o cimo desejado,
De astúcia em vez da força? Oh! não, muito obrigado.
Entrar para o canil dos poetas rafeiros,
Como eles dedicar versos aos financeiros
E fazer de bufão para que um potentado
Haja por bem servir? Oh! não, muito obrigado.
Almoçar cada dia um sapo sem ter nojo,
Rustir o ventre por andar sempre de rojo,
Ter a rótula suja e fazer menos mal
Prontas deslocações da coluna dorsal?
Obrigado. Trazer o incensório suspenso
A um ídolo que viva entre nuvens de incenso,
Ganhar celebridade, aplausos e coroas
Num círculo de trinta ou quarenta pessoas?
Navegar, tendo em vez de remos madrigais
E, a tufarem-me a vela, os suspiros fatais
Das velhas, num derriço? Obrigado, obrigado.
Ganhar fama de autor por haver publicado
Meus versos, mas pagando o livro aos editores?
Obrigado. Viver de esmolas e favores,
Sem papa nas reuniões que, em baiucas sem nome,
Fazem alguns sandeus? Ver se alcanço renome
Com um soneto, se tanto, em vez de fazer mil,
Achar muito talento em qualquer imbecil?
Obrigado. Ter medo aos jornais, ser amigo
De elogios, dizer de mim para comigo:
“Ah! se o meu nome vier no Mercúrio francês!...”
Calcular, ter na face impressa a visita
A bordar, carinhoso, uma estrofe bonita,
Ser da matilha, hedionda e vil, dos pretendentes,
Redigir petições e mendigar presentes?
Obrigado. Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Mas... cantar, mas viver num sonho alcandorado,
Calmo e feliz, o olhar seguro, a voz vibrante,
De quando em vez, e, por capricho, petulante,
Por de través o feltro, e por um quase nada,
Dar um beijo na Musa ou dar uma estocada.
Nem um verso escrever que a mim me não pertença,
E, apesar disso tudo, uma modéstia imensa:
Pagar-me com uma flor, ou um fruto apetecido,
Contanto que no meu pomar seja colhido.
E, em suma, desdenhando a hera vil que se esconde,
Não conseguindo ser o roble, cuja fronde
Mora perto do Azul e distante do pó,
Subir pouco, mas só, completamente só.
ATO III, CENA X
CYRANO
Um beijo? Mas que vem a ser um beijo ao certo?
É um juramento feito um pouco mais de perto,
É uma confissão de amor, que bem depressa
Queremos confirmada. O beijo é uma promessa,
É um segredo que toma a boca pelo ouvido,
Momento divinal, que faz como um zumbido
Caricioso de abelha. O beijo, meu amor,
É uma comunhão, tendo gosto de flor,
Maneira deliciosa e maneira inebriante
De haurir-se todo o aroma a um coração amante,
E de gozar-se uma alma, à flor de uns lábios quentes.
Tradução de Ricardo Gonçalves
Ipês, 1921, p. 95-104. Ortografia atualizada.
Notas:
Edmond Rostand
ATO I, CENA IV
CYRANO
Elegâncias? também as tenho... moralmente.
Se não me enfeito como um fofo peralvilho,
Sou mais limpo, apesar de ser menos casquilho.
Nunca ninguém me viu, tendo, por negligência,
O coração manchado ou manchada a consciência.
Levando a Dignidade andrajosa e rasgada,
Ou alguma afronta que não fosse bem lavada.
Sim. Tudo em mim reluz, refulge. Intemerato,
A Franqueza e a Lealdade, eis as plumas de ornato
Que ostento no chapéu. Não é um talhe bem feito:
É minh'alma que eu trago esbelta, que endireito
E aprumo como quem aprumasse a estatura;
Em vez de laços, tenho ações de alta bravura;
E, assim como o bigode, o espírito cofiando,
Os grupos atravesso e, entre eles, agitando
As verdades brutais que tinem como esporas.
ATO I, CENA V
CYRANO
Oh! dize que esperança eu posso ter com tal
Superdesmesurado apêndice nasal?
Não me iludo. A minh'alma, às vezes, se enternece
Na hora azul em que a tarde expira e a noite desce...
Penetro num jardim: que perfumes sutis
Haure este malfadado, este pobre nariz!
É abril, o doce mês... passam dois namorados,
Um casal, junto a mim... eu os vejo enlaçados
E penso que também poderia trazer
Suspenso de meu braço um corpo de mulher...
Um vulto feminil que em meu braço descansa...
Um beijo... uma carícia... o aroma de uma trança...
E esqueço-me de tudo, e não sei o que penso,
E, de repente, vejo estampar-se, ai de mim!
A sombra colossal do meu nariz imenso
No muro do jardim.
LE BRET (comovido)
Meu pobre amigo!...
CYRANO
Sim! sou bem digno de dó,
Sentindo-me tão feio, às vezes, e tão só!
Tu não podes saber quanto sofro... que de horas
Amargas e cruéis! que suplício!
LE BRET
Tu choras?
CYRANO
Não, chorar, isso não! seria tão grotesco
A lágrima a rolar no dorso gigantesco
Do meu pobre nariz!... Jamais consentiria
Essa enorme abjeção, tamanha grosseria!
A lágrima! não há nada mais belo, nada,
E eu não quero que em mim provoque a gargalhada.
ATO II, CENA IV
RAGUENEAU
Maneira de fazer pastéis de amêndoa (*)
Com três ovos — cada clara
Bem batida, uma por uma,
Se prepara
Uma xícara de espuma
Branca e leve qual se fosse
Neve pura; põe-se então,
Com leite de amêndoa doce,
Quinze gotas de limão.
Depois se bate e adelgaça,
Visando-se obra perfeita,
Fina massa
Que se deita
Numas formas especiais.
E em cada pastel, brocado
Lado a lado,
Põe-se a espuma e nada mais.
Os pastéis assim obtidos
São no forno muito quente,
Docemente,
Com cautela introduzidos.
Espera-se um pouco e, após,
Na bandejinha que os trouxe,
Enfileiram-se ante nós
Os pastéis de amêndoa doce.
(1904)
ATO III, CENA VIII
CYRANO
Mas que fazer então?
Buscar um protetor poderoso, um patrão?
Ser como a hera que enlaça o carvalho robusto,
E lambe-lhe a cortiça e trepa então sem custo?
Usar, para atingir o cimo desejado,
De astúcia em vez da força? Oh! não, muito obrigado.
Entrar para o canil dos poetas rafeiros,
Como eles dedicar versos aos financeiros
E fazer de bufão para que um potentado
Haja por bem servir? Oh! não, muito obrigado.
Almoçar cada dia um sapo sem ter nojo,
Rustir o ventre por andar sempre de rojo,
Ter a rótula suja e fazer menos mal
Prontas deslocações da coluna dorsal?
Obrigado. Trazer o incensório suspenso
A um ídolo que viva entre nuvens de incenso,
Ganhar celebridade, aplausos e coroas
Num círculo de trinta ou quarenta pessoas?
Navegar, tendo em vez de remos madrigais
E, a tufarem-me a vela, os suspiros fatais
Das velhas, num derriço? Obrigado, obrigado.
Ganhar fama de autor por haver publicado
Meus versos, mas pagando o livro aos editores?
Obrigado. Viver de esmolas e favores,
Sem papa nas reuniões que, em baiucas sem nome,
Fazem alguns sandeus? Ver se alcanço renome
Com um soneto, se tanto, em vez de fazer mil,
Achar muito talento em qualquer imbecil?
Obrigado. Ter medo aos jornais, ser amigo
De elogios, dizer de mim para comigo:
“Ah! se o meu nome vier no Mercúrio francês!...”
Calcular, ter na face impressa a visita
A bordar, carinhoso, uma estrofe bonita,
Ser da matilha, hedionda e vil, dos pretendentes,
Redigir petições e mendigar presentes?
Obrigado. Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Mas... cantar, mas viver num sonho alcandorado,
Calmo e feliz, o olhar seguro, a voz vibrante,
De quando em vez, e, por capricho, petulante,
Por de través o feltro, e por um quase nada,
Dar um beijo na Musa ou dar uma estocada.
Nem um verso escrever que a mim me não pertença,
E, apesar disso tudo, uma modéstia imensa:
Pagar-me com uma flor, ou um fruto apetecido,
Contanto que no meu pomar seja colhido.
E, em suma, desdenhando a hera vil que se esconde,
Não conseguindo ser o roble, cuja fronde
Mora perto do Azul e distante do pó,
Subir pouco, mas só, completamente só.
ATO III, CENA X
CYRANO
Um beijo? Mas que vem a ser um beijo ao certo?
É um juramento feito um pouco mais de perto,
É uma confissão de amor, que bem depressa
Queremos confirmada. O beijo é uma promessa,
É um segredo que toma a boca pelo ouvido,
Momento divinal, que faz como um zumbido
Caricioso de abelha. O beijo, meu amor,
É uma comunhão, tendo gosto de flor,
Maneira deliciosa e maneira inebriante
De haurir-se todo o aroma a um coração amante,
E de gozar-se uma alma, à flor de uns lábios quentes.
Tradução de Ricardo Gonçalves
Ipês, 1921, p. 95-104. Ortografia atualizada.
Notas:
1- Edmond Rostand (1868-1918), poeta, ensaísta e dramaturgo francês. Foi membro da Academia Francesa. Veja também: https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmond_Rostand.
2- Têm-se aqui trechos da mais famosa obra de Rostand, Cyrano de Bergerac, inspirada na vida do escritor francês de mesmo nome:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cyrano_de_Bergerac_(pe%C3%A7a_de_teatro).
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cyrano_de_Bergerac_(pe%C3%A7a_de_teatro).
3- A tradução, feita por Ricardito, da fala de Cyrano na cena VIII do Ato III, conhecida como "Não, muito obrigado", foi lida no programa "Lavra da Palavra" da rádio Cultura FM de São Paulo, na edição de 31/12/2014. Confira-se aqui:
http://culturafm.cmais.com.br/radiometropolis/lavra/edmond-rostand-nao-muito-obrigado.
4- Este trecho com a receita de "pastéis" ou "tortazinhas" de amêndoas não consta em Ipês; a tradução que lá está não é de Ricardo Gonçalves. Mas... como e por quê?
Após a morte de Ricardo, em 1916, Monteiro Lobato e outros amigos seus começaram a reunir suas composições para publicá-las; a obra saiu do prelo apenas em 1921.
http://culturafm.cmais.com.br/radiometropolis/lavra/edmond-rostand-nao-muito-obrigado.
4- Este trecho com a receita de "pastéis" ou "tortazinhas" de amêndoas não consta em Ipês; a tradução que lá está não é de Ricardo Gonçalves. Mas... como e por quê?
Após a morte de Ricardo, em 1916, Monteiro Lobato e outros amigos seus começaram a reunir suas composições para publicá-las; a obra saiu do prelo apenas em 1921.
Alguns anos depois, surge uma acusação de plágio: o texto da tradução de Ricardito para a "receita" era idêntico ao da tradução do Cyrano feita por Porto Carreiro (https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_da_Costa_Ferreira_Porto_Carreiro) e publicada por volta de 1907.
Teria Ricardito plagiado Porto Carreiro?
No artigo "Plágio Post-Mortem", publicado alguns anos após o lançamento de Ipês, Monteiro Lobato discutiu e esclareceu a questão, reproduzindo a tradução da famosa receita de tortinhas feita por Ricardo e publicada em uma revista em 1904.
Segundo Lobato, ocorreu o seguinte:
Como o livro dos “Ipês” só foi organizado muitos anos depois da morte do poeta o organizador do trabalho teve que lutar com muitas dificuldades. Teve que catar as produções esparsas aqui e ali, escabichando coleções de revistas e jornais, álbuns, memória de amigos. E no afã da colheita... apanhou a tradução de Carrero e a incluiu na coletânea como sendo a de Ricardo.
Fica explicado, então, o caso de suposto plágio de Ricardito. Concluímos com Monteiro Lobato:
Que criatura feliz este Rostand, cujos versos encontram tradutores de tal quilate!
A tradução de Porto Carreiro, publicada equivocadamente como se fosse de Ricardo Gonçalves, é esta (conforme consta em Ipês):
Tortazinhas de amêndoa e modo de as formar
Batam-se bem alguns ovos
─ Inda novos;
Nas ondas que a espuma trouxe
De cidra o sumo se deite,
Grosso leite,
Bom leite de amêndoa doce.
Passe-se dentro da lata
Fresca nata
Em formas de bom-bocado;
De damasco a borda peje-se;
E despeje-se
Gota a gota, com cuidado,
Tudo na fôrma, de forma
Que essa fôrma
Vá para o forno; e, rendendo-a,
Sigam-se as outras; saindo,
Venham vindo
As tortazinhas de amêndoa.
O artigo "Plágio Post-Mortem" de Monteiro Lobato foi republicado em 1933 no livro Na Antevéspera ─ Reações Mentais de Um Ingênuo, que pode ser lido online aqui: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/antevespera.html.
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