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Ipês XXVII. Traduções: "Frêmitos de Amor" de J. Richepin

FRÊMITOS DE AMOR

Jean Richepin

Na sombra, junto a mim, há frêmitos de amor.
           Traz-me a brisa, entontecedor,
Um bafejo aromal de jasmins e de rosas.
Plangem de manso, no ar, músicas misteriosas,
           Cheias de um cálido langor.
Na sombra, junto a mim, há frêmitos de amor.

E ai! é tão longe a terra, as praias tão distantes!
           Adeus, adeus, lindas amantes!
Trança em que me prendi ― laço cheiroso e brando ―
Boca de onde arranquei meu coração sangrando,
           Tão longe! Adeus, carnes em flor!
Na sombra, junto a mim, há frêmitos de amor.

A estas recordações meu sangue moço estua.
Aromas, compaixão! Desaparece, ó lua!
Ventre alvo, seios nus, sustai vossa vingança!
           Adeus, ó boca! adeus, ó trança!
           Adeus, adeus, carnes em flor!
Na sombra, junto a mim, há frêmitos de amor.

Tradução de Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 93-94. Ortografia atualizada.

Notas:

1- Jean Richepin (1849-1926), poeta, dramaturgo e novelista francês. Foi membro da Academia Francesa. Mais sobre ele aqui:

2- Esta é a tradução que Ricardo Gonçalves fez de "Frissons d'Amour", poema de número XII da seção "Étant de Quart" do livro La Mer, publicado por Jean Richepin em 1886. O original francês é este:

Frissons d'Amour

Dans l’ombre autour de moi vibrent des frissons d’amour.
Venu je ne sais d’où parmi les senteurs salines
Traîne un vol de parfums, œillets, roses, miel, prâlines.
Le vent voluptueux roule un chœur de voix câlines.
Dans l’ombre autour de moi vibrent des frissons d’amour.
Pourtant, la terre est loin, la terre où sont les maîtresses.
Adieu, bagne, où vaincu m’avaient enchaîné leurs tresses!
J’ai repris en lambeaux mon cœur aux dents des ogresses.
Dans l’ombre autour de moi vibrent des frissons d’amour.
Ah! votre souvenir soûle encor mon sang de mâle.
Voix, parfums, laissez-moi! Toi, lune, va-t’en! Sein pâle,
Ventre blanc, chair! Pitié! Ne vous vengez pas! Je râle!...
Dans l’ombre autour de moi vibrent des frissons d’amour.

In: RICHEPIN, Jean. La Mer. Paris: G. Charpentier et E. Fasquelle, 1894. p. 220.

Como se vê, o original tem 13 versos numa única estrofe, os quais Ricardito, em sua tradução, recriou em 18 versos agrupados em 3 estrofes.

3- A obra La Mer (edição de 1894) de Jean Richepin está disponível para leitura online em Wikisource:

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