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Ipês XXII. Fumando

FUMANDO...

Sobe em volutas a fumaça.
Em torno a mim tudo descansa.
Tinhas na voz tamanha graça...
Era tão fulva a tua trança...
Porque será que esta lembrança
O coração me despedaça?

Branca, aromal, trajando luto,
Vens do passado. Em brandas queixas,
A tua voz, que treme, escuto.
Beijo-te as fúlgidas madeixas...
Mas por que vens, por que não deixas
Minh'alma em paz, um só minuto?

Sonhos, delírios... a doçura
De uma afeição correspondida...
Raios de sol e noite escura,
Assim passava a nossa vida;
Ora, uma lágrima dorida,
Ora, um sorriso de ventura...

Crepuscular melancolia...
Um vago aroma de verbena.
Ao longe, um sino, que plangia,
Dava o sinal para a novena...
E eu te beijava a mão pequena,
E o teu olhar esmorecia...

Onde esse andar cheio de graça?
Onde o torsal dos teus cabelos?
Como a tenuíssima fumaça,
Que sobe aos ares em novelos,
Os sonhos bons, os pesadelos,
Tudo passou... pois tudo passa.

Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 75-77. Ortografia atualizada.

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