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Ipês XXX. Traduções: "Os Elefantes" de L. de Lisle

OS ELEFANTES

Leconte de Lisle

O areal infinito é como um rubro oceano,
Que resplandece, mudo, em seu leito espraiado.
Ondula, imoto, o céu cor de cobre, do lado
Do horizonte em que habita o formigueiro humano.

Nem rumor e nem vida... O leão, farto, descansa
No antro afastado, em meio aos matagais infindos.
Vai beber a girafa esguia à fonte mansa,
Que a pantera conhece, ao pé dos tamarindos.

Dorme tudo. Sequer um pássaro no ar quente,
No ar em que gira um sol de fogo, um sol em chama...
Às vezes, com volúpia, adormida serpente
Faz ondular, morosa, a rutilante escama.

O ar inflamado queima. O calor é mais denso.
E, bamboleando a massa ─ intrépidos viajantes,
Rumo do ermo natal, pelo deserto imenso,
Vão-se, num bando escuro, os tardos elefantes.

Vêm eles do horizonte ensanguentado e quieto,
Vêm levantando o pó, que em nuvem grossa ondeia,
E, para não sair do caminho mais reto,
Desmoronam com a pata os cômoros de areia.

Velho chefe, talvez, é o que à frente caminha:
Rugosa como um tronco a pele do seu dorso;
É um rochedo a cabeça... O arco imenso da espinha
Dobra-se, com violência, ao mais pequeno esforço.

Os passos não estuga e também não lerdeia
Que os passos pelos dele o bando inteiro marca.
E, deixando após si fundos sulcos na areia,
Seguem todos, atrás do velho patriarca.

Seguem, levando a tromba apertada entre os dentes,
As orelhas em leque. O ventre bate e fuma...
E o suor deles produz uma ligeira bruma
No ar cheio de tavões e de insetos ardentes.

Mas, que importam a sede e o calor sufocante?
Que lhes importa o enxame importuno que esvoaça?
Vai o bando a pensar numa selva distante
─ Primeira habitação da primitiva raça.

Vai rever uma selva umbrosa o escuro bando...
E a caudal em que nada o hipopótamo enorme,
E onde, brancos de luar, iam beber, quebrando
Os juncos marginais com a grande pata informe.

Lá vão... E a linha escura e fantástica ondeia...
Lá vão eles, molgando as juntas, lentamente,
Mas passam... e depois fica imóvel a areia,
Passam... e depois fica o deserto somente.

Tradução de Ricardo Gonçalves

Ipês, 1921, p. 109-112. Ortografia atualizada.

Notas:


1- Leconte de Lisle (1818-1894), poeta francês nascido na ilha de Reunião. Foi membro da Academia Francesa. Mais sobre ele aqui (em francês): 


2- O poema original, "Les Éléphants", consta da obra Poèmes Barbares, cuja primeira edição é de 1862. O original é este, conforme a edição de 1889, disponível em Wikisource:

Les Éléphants

Le sable rouge est comme une mer sans limite,
Et qui flambe, muette, affaissée en son lit.
Une ondulation immobile remplit
L'horizon aux vapeurs de cuivre où l'homme habite.

Nulle vie et nul bruit. Tous les lions repus
Dorment au fond de l'antre éloigné de cent lieues,
Et la girafe boit dans les fontaines bleues,
Là-bas, sous les dattiers des panthères connus.

Pas un oiseau ne passe en fouettant de son aile
L'air épais, où circule un immense soleil.
Parfois quelque boa, chauffé dans son sommeil,
Fait onduler son dos dont l'écaille étincelle.

Tel l'espace enflammé brûle sous les cieux clairs.
Mais, tandis que tout dort aux mornes solitudes,
Lés éléphants rugueux, voyageurs lents et rudes
Vont au pays natal à travers les déserts.

D'un point de l'horizon, comme des masses brunes,
Ils viennent, soulevant la poussière, et l'on voit,
Pour ne point dévier du chemin le plus droit,
Sous leur pied large et sûr crouler au loin les dunes.

Celui qui tient la tête est un vieux chef. Son corps
Est gercé comme un tronc que le temps ronge et mine
Sa tête est comme un roc, et l'arc de son échine
Se voûte puissamment à ses moindres efforts.

Sans ralentir jamais et sans hâter sa marche,
Il guide au but certain ses compagnons poudreux;
Et, creusant par derrière un sillon sablonneux,
Les pèlerins massifs suivent leur patriarche.

L'oreille en éventail, la trompe entre les dents,
Ils cheminent, l'oeil clos. Leur ventre bat et fume,
Et leur sueur dans l'air embrasé monte en brume;
Et bourdonnent autour mille insectes ardents.

Mais qu'importent la soif et la mouche vorace,
Et le soleil cuisant leur dos noir et plissé?
Ils rêvent en marchant du pays délaissé,
Des forêts de figuiers où s'abrita leur race.

Ils reverront le fleuve échappé des grands monts,
Où nage en mugissant l'hippopotame énorme,
Où, blanchis par la Lune et projetant leur forme,
Ils descendaient pour boire en écrasant les joncs.

Aussi, pleins de courage et de lenteur, ils passent
Comme une ligne noire, au sable illimité;
Et le désert reprend son immobilité
Quand les lourds voyageurs à l'horizon s'effacent.


In: LECONTE DE LISLE. Poèmes Barbares. Paris: Librairie Alphonse Lemerre, [1889?]. (Œuvres de Leconte de Lisle). p. 183-185. Disponível em:
https://fr.wikisource.org/wiki/Po%C3%A8mes_barbares.

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