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Mostrando postagens de outubro, 2016

Ipês XLII. [Apêndice] Visão

VISÃO Na rósea nuvem de um sonho, Chegas. Minh’alma te vê... Mas, a visão doce e casta Rapidamente se afasta, Sem que tu saibas por quê... Foge... e logo sobre a alma Pesado manto de treva A dor estende minaz. E essa nuvem que te traz, A mesma nuvem te leva... Não quero que me visites, Meu descorado jasmim, Quando nesta luta insana, Feroz alcateia humana, Vocifera junto a mim... Mas só, no meu quarto, à noite, Fico instantes que nem sei... Haurindo o aroma celeste Das flores que tu me deste E dos beijos que te dei. 1899 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 139-140. Ortografia atualizada.

Ipês XLI. [Apêndice] Só

SÓ Que noite, santo Deus! A espaços relampeja, E retumbam trovões. Colo o rosto à vidraça: Na rua cenagosa e triste ninguém passa, Atra melancolia o céu plúmbeo poreja. E eu, tão longe de ti... sozinho, no remanso Da alcova, enquanto fora estronda a tempestade, Sinto dentro do peito, a soluçar, de manso, Queixoso, o bandolim de uma estranha saudade!... 1904 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 137. Ortografia atualizada.

Ipês XL. [Apêndice] Primeiro Amor

PRIMEIRO AMOR A asa que passa, num celeste arpejo, O nome teu repete, ó linda flor! E conta a história do primeiro beijo À luz do sol, ao doce aroma e à cor. Primeiro beijo do primeiro amor, Que acalentar as nossas almas veio, Mas, que partiu depois, partiu... Maldade, Maldoso amor! deixando-nos no seio O áspide venenoso, que é a saudade. A serpe venenosa e traidora Abandonou-me em lânguido repouso.                 Dorme agora Em nossos corações fartos de gozo. Porém, oh sim! há de acordar um dia, Quando sentirmos a asa do desejo Cantar numa celeste melodia A doce história do primeiro beijo. E então, nesse momento, a asa que passa, E a luz do sol, e o doce aroma, e a cor, Repetirão talvez com terna graça A louca história do primeiro amor. 1898 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 135-136. Ortografia atualizada.

Ipês XXXIX. [Apêndice] Olhos Pretos

OLHOS PRETOS Teus grandes olhos pretos e formosos, Teus grandes olhos são como dois lagos, Onde nadam desejos voluptuosos, Onde boiam volúpicos afagos. Na travessia destes procelosos Mares da vida, escuros e pressagos, Teus grandes olhos pretos e formosos São para mim a estrela dos Reis Magos. Sol, auroras, crepúsculos e luares Recebem sua luz dos teus olhares, Que são a luz dos meus febris sonetos. E eu, se ainda tenho risos para a vida, É que eu a vejo, doce flor querida, Pela pupila dos teus olhos pretos! 1900 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 131-132. Ortografia atualizada.

Ipês XXXVIII. [Apêndice] "Tesoro Mio"

"TESORO MIO" Valsa de Ernesto Becucci Por que será que as doces melodias            Que brotam do teclado, Levam minh'alma aos venturosos dias, Aos venturosos dias do passado? Vem-me de longe mágica fragrância Que a um tempo venturoso me transporta, Doce ilusão da minha doce infância, Doce ilusão há tanto tempo morta! Ouço na igreja o bimbalhar do sino. Perseguem-me andorinhas no telhado. Ó meus dias felizes de menino, Ó santas ilusões do meu passado! Para onde foi esse viver risonho, Essa ave de oiro que em meu peito havia, A repetir baixinho, noite e dia, A cavatina módula do sonho? De amores tive o peito constelado: Eu era pequenino, ela pequena; Ó santinha do altar do meu passado, Ó perfume das noites de novena! E as lembranças dulcíssimas da infância Para minha saudade redivivas, Surgem nos horizontes, à distância, Como um bando de pombas fugitivas. 1900 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 131-132. Ortografia atualiza...

Ipês XXXVII. [Apêndice] No Minarete

NO “MINARETE” Pela janela um céu de maio. Leve Perfume de jasmins. Rechina um carro. Contemplo o rendilhado que descreve No espaço o fumo azul do meu cigarro. Lá fora, aos bambuais segreda o vento Uma doce balada comovida. Oh! repousa afinal meu pensamento: Não penso em cousa alguma desta vida. Tenho uma ideia negra? Logo a varro Do cérebro e de súbito ela passa Como passam as nuvens do cigarro. Dolce far niente ! O pensamento agora É leve como as nuvens de fumaça, Como as nuvens do fumo se evapora. 1903 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 129-130. Ortografia atualizada. Nota: Minarete foi o nome dado por Ricardo Gonçalves ao chalé amarelo da rua 21 de Abril, no bairro do Belenzinho, São Paulo, em cuja parte superior ele, Godofredo Rangel, Monteiro Lobato e outros estudantes residiram durante cerca de dois anos. O grupo recebeu de seus membros o nome de Cenáculo , mas ficou conhecido também como Grupo do Minarete. Os altos do chalé haviam sido alugados e...

Ipês XXXVI. [Apêndice] Aves de Arribação

AVES DE ARRIBAÇÃO Um dia, pelo inverno, os passarinhos, Aos primeiros palores da alvorada, Abandonam em doida revoada A tepidez plumosa de seus ninhos. Deixam a antiga habitação, de arminhos E de penas finíssimas forrada, E vão-se para longe dos caminhos, Através da floresta embalsamada. Ó aves descuidosas e felizes Que o benéfico sol da primavera Demandais noutros climas e países, Aves de arribação, trêfego bando, Eu também vou partir... mas quem me dera, Mas quem me dera ir como vós cantando! 1904 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 127-128. Ortografia atualizada.

Ipês XXXV. [Apêndice] O Pombo

O POMBO O sabiá titubeante e a juriti plangente, A rola e o tangará, no seio redolente Da mata secular, em prazenteiro bando, Cantam ao vir do sol ou quando o sol no poente   Vai aos poucos tombando. Depois, se a noite chega, e ao longo dos caminhos Soluçam noitibós, as aves de seus ninhos Vão buscar o aconchego e a tepidez macia, Sem ver que a chuva cai... felizes passarinhos!   E que a noite é sombria. Lá fora o vento agita as franças do arvoredo, E a mata é silenciosa e o céu é torvo e tredo; A rola está em seu ninho, e os filhotes lá estão, Pode a chuva cair, que as aves não têm medo   Da chuva e do tufão. Nasce o dia porém e acordam na floresta Mil rumores sutis num frêmito de festa. O sol aponta ao longe, além da serra, além... E o grito dos anuns e os da araponga mesta   Anunciá-lo vêm. Rumores de cascata à sombra hospitaleira De alto jequitibá, de frondosa mangueira, A frescur...

Ipês XXXIV. [Apêndice] Alvuras

ALVURAS Os colonos na faina da capina Cantam além, num cafezal formado. Rincha um carro de bois. Vem do intrincado Seio da mata o som de uma buzina. Com virginais alvuras de noivado, Na encosta pitoresca da colina, Fulgem ao sol, que a todas ilumina, As casinholas brancas do povoado. Bimbalham sinos religiosamente Na capelinha branca. Há muita gente De rosto compungido em cada porta. E, à luz do sol, que rútilo cintila, Vai pela rua principal da vila O esquife branco de uma noiva morta. 1900 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 121-122. Ortografia atualizada.

Ipês XXXIII. [Apêndice] Jequitibá

JEQUITIBÁ Nesta chapada verde em que teu vulto impera, Hoje de cada moita uma voz se levanta Para cantar a vida; e a vida em cada planta, A vida em cada arbusto, esplêndida, exubera. Porém, tu já morreste. Embalde a primavera Volta e, para saudá-la, a natureza canta. Que importa se teu vulto a passarada espanta! Que importa, velho rei, se o machado te espera?! Morreste! Nunca mais, como nos tempos idos, Verás na primavera os teus galhos floridos, Terás como tiveste arvoredo copado. E tu já foste rei de uma antiga floresta, E hoje, inválido e só, nem ao menos te resta Um sabiá que te cante as canções do passado. 1900 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 119-120. Ortografia atualizada.

Ipês XXXII. [Apêndice] Passeio

PASSEIO Vamos pelos atalhos divagando. Vamos bem devagar, tão de mansinho Que, em nos vendo passar, a ave do ninho Ponha a cabeça fora e fique olhando. Que as borboletas, num iriado bando, E o buliçoso e arisco passarinho, Em nos vendo passar pelo caminho, Continuem nas moitas adejando. Iremos, passo a passo, olhar perdido, Tu, segurando a cauda do vestido, Eu, aparando a palha de um cigarro. E, na volta, se virmos casualmente Com seu carro de bois o tio Vicente, Voltaremos de pândega no carro. 1901 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 117-118. Ortografia atualizada.

Ipês XXXI. [Apêndice] Manhã

MANHÃ Densa neblina envolve a serrania. Vem nascendo a manhã. Débeis rumores Partem da mata em férvida alegria, Partem da mata a transbordar de flores. Canta na roça, onde a araponga pia, A alegre turma dos capinadores. O sol de maio, rútilo, irradia, E faz da terra um prisma de mil cores. Gorjeiam aves, sacudindo o orvalho, Cortam do espaço o límpido arrebol, E vão pousar bem longe, noutro galho. Da névoa o manto dissipou-se agora; Cheio da messe a lourejar ao sol, Rechina um carro pela estrada afora. 1903 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 115-116. Ortografia atualizada. Nota: Este poema abre a terceira parte do livro Ipês , "Apêndice", em que se arrolam os primeiros poemas que Ricardo Gonçalves compôs. Eis a nota dos editores à parte final do livro: APÊNDICE NOTA Ricardo Gonçalves nasceu em 1883 e muito cedo revelou-se poeta. Aos quatorze anos já deu fortes mostras da sua sensibilidade estética, em versos imperfeitos quanto à forma, emb...