Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de setembro, 2016

Ipês XXX. Traduções: "Os Elefantes" de L. de Lisle

OS ELEFANTES Leconte de Lisle O areal infinito é como um rubro oceano, Que resplandece, mudo, em seu leito espraiado. Ondula, imoto, o céu cor de cobre, do lado Do horizonte em que habita o formigueiro humano. Nem rumor e nem vida... O leão, farto, descansa No antro afastado, em meio aos matagais infindos. Vai beber a girafa esguia à fonte mansa, Que a pantera conhece, ao pé dos tamarindos. Dorme tudo. Sequer um pássaro no ar quente, No ar em que gira um sol de fogo, um sol em chama... Às vezes, com volúpia, adormida serpente Faz ondular, morosa, a rutilante escama. O ar inflamado queima. O calor é mais denso. E, bamboleando a massa ─ intrépidos viajantes, Rumo do ermo natal, pelo deserto imenso, Vão-se, num bando escuro, os tardos elefantes. Vêm eles do horizonte ensanguentado e quieto, Vêm levantando o pó, que em nuvem grossa ondeia, E, para não sair do caminho mais reto, Desmoronam com a pata os cômoros de areia. Velho chefe, talvez, é o que à frente cam...

Ipês XXIX. Traduções: "Sonhos Mortos" de L. de Lisle

SONHOS MORTOS Leconte de Lisle Olha, amigo: este mar, que ora assim vês tão manso, Bateu, como um aríete, um dia, sem descanso, Os promontórios; foi aos saltos, em cachões, Escalando, subindo as rochas e sobre elas Estendeu a bramir, no fragor das procelas, O espumoso lençol dos negros vagalhões. Agora o encrespa a fresca brisa matutina. A beleza do sol as águas ilumina E longe, em direção desse horizonte infindo, Onde passam, nadando, embarcações remotas, Vai-se da costa azul, o páramo cindindo, Em trêmula revoada, um bando de gaivotas... Ali boiam, porém, contornando os ilhéus, Destroços de naufrágio; e esses que os escarcéus Assassinaram vão, sob as ondas pesadas, Lívidos, a sangrar, de costas ou de bruços, A boca aberta transbordante de soluços, Olhos vítreos, olhando as águas sossegadas. Meu coração é como esse mar que, tranquilo, Beija as praias agora em doce murmurilo. Também chorou, rugiu como ele... Sem descanso Contra as rochas lançou-se em tremen...

Ipês XXVIII. Traduções: Do "Cyrano de Bergerac" de E. Rostand

DO “CYRANO DE BERGERAC” Edmond Rostand ATO I, CENA IV CYRANO Elegâncias? também as tenho... moralmente. Se não me enfeito como um fofo peralvilho, Sou mais limpo, apesar de ser menos casquilho. Nunca ninguém me viu, tendo, por negligência, O coração manchado ou manchada a consciência. Levando a Dignidade andrajosa e rasgada, Ou alguma afronta que não fosse bem lavada. Sim. Tudo em mim reluz, refulge. Intemerato, A Franqueza e a Lealdade, eis as plumas de ornato Que ostento no chapéu. Não é um talhe bem feito: É minh'alma que eu trago esbelta, que endireito E aprumo como quem aprumasse a estatura; Em vez de laços, tenho ações de alta bravura; E, assim como o bigode, o espírito cofiando, Os grupos atravesso e, entre eles, agitando As verdades brutais que tinem como esporas. ATO I, CENA V CYRANO Oh! dize que esperança eu posso ter com tal Superdesmesurado apêndice nasal? Não me iludo. A minh'alma, às vezes, se enternece Na hora azul em que a tarde e...

Ipês XXVII. Traduções: "Frêmitos de Amor" de J. Richepin

FRÊMITOS DE AMOR Jean Richepin Na sombra, junto a mim, há frêmitos de amor.            Traz-me a brisa, entontecedor, Um bafejo aromal de jasmins e de rosas. Plangem de manso, no ar, músicas misteriosas,             Cheias de um cálido langor. Na sombra, junto a mim, há frêmitos de amor. E ai! é tão longe a terra, as praias tão distantes!             Adeus, adeus, lindas amantes! Trança em que me prendi ― laço cheiroso e brando ― Boca de onde arranquei meu coração sangrando,             Tão longe! Adeus, carnes em flor! Na sombra, junto a mim, há frêmitos de amor. A estas recordações meu sangue moço estua. Aromas, compaixão! Desaparece, ó lua! Ventre alvo, seios nus, sustai vossa vingança!             Adeus, ó boca! adeus, ó trança!             Adeus, adeus, carnes ...

Ipês XXVI. Traduções: "Serenata" de F. Coppée

SERENATA François Coppée Prometeste-me, pequena, Para esta noite serena Um beijo da boca tua, Por isso bem devagar Acabo de escorregar Do céu num raio de lua. Iremos sem fazer ruído Pelo atalho percorrido Tantas vezes ― que prazer! Iremos pelo caminho Escutando o borborinho Das correntes, sem as ver. E para termos um guia Através da ramaria, Na paz noturna dos campos, Onde tudo é triste e belo, ― Na noite do teu cabelo Colocarás pirilampos. Tradução de Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 91-92. Ortografia atualizada. Notas: 1-  François Coppée (1842-1908), poeta, prosador, dramaturgo e ensaísta francês. Autor de vasta obra, foi membro da Academia Francesa e um dos escritores mais conhecidos de seu tempo. Mais sobre ele aqui (em francês): https://fr.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7ois_Copp%C3%A9e . 2- Esta tradução (ou antes, recriação) de Ricardo Gonçalves baseia-se num trecho da peça Severo Torelli , drama em versos de Coppée encenado pela primei...

Ipês XXV. Traduções: "Doente" de L. Stecchetti

DOENTE Lorenzo Stecchetti O crânio se me estala. Estou doente. Força e vigor já os músculos não têm. Magro, febril, padeço horrivelmente, Mas quando penso em ti me sinto bem. Mas quando penso em ti, doce criança, Foge-me a dor e volve-me a esperança. Quisera a morte para não sofrer, Mas quando penso em ti, quero viver. Tradução de Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 89. Ortografia atualizada. Notas: 1- Lorenzo Stecchetti foi um dos pseudônimos do escritor italiano Olindo Guerrini (1845-1916). Mais sobre Guerrini na Wikipedia (em italiano): https://it.wikipedia.org/wiki/Olindo_Guerrini . 2- O poema original, em italiano, é conhecido como "Ad Una Donna" e é citado na apresentação – "Al Lettore" – de Postuma , obra publicada por Guerrini em 1877, na qual ele alega ter reunido a produção poética de seu falecido primo Lorenzo Stecchetti: Mi si spezza la testa. Io son malato E la febbre mi brucia entro le vene. Sono debole, gial...

Ipês XXIV. Traduções: Do "Intermezzo" de H. Heine

DO “INTERMEZZO” Heinrich Heine I Tu tens o estio na face, O inverno no coração; Na face, a estação do riso, No peito, a negra estação. Mas não tarda que isso mude. Mudada serás... e então, O inverno terás na face, Terás no peito o verão. II As violetas do olhar, a deliciosa Papoula da boquinha perfumosa, Da face iluminada as açucenas E o suavíssimo lírio transparente Das mãozinhas fidalgas e pequenas, Esses vicejam prodigiosamente, Pois seco e murcho é o coração apenas. III Procurei, minha amada, no jardim,           O lugar em que um dia Teu mentiroso lábio repetia Que o nosso amor jamais teria fim. O peito, apunhalado pela dor,           Quis ver esse recanto Em que desfiaste as pérolas do pranto E me deste, criança, o teu amor. Dona dos olhos grandes cor do mar, Dona dos grandes olhos penitentes:           Venenosas serpentes   ...