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Mostrando postagens de agosto, 2016

Ipês XVII. A Árvore

A ÁRVORE Para as crianças das escolas Salta do leito e vem cá fora, Vem ver esta árvore, sonora De murmurinhos e canções. O sol nascente a afaga e beija, E as suas frondes purpureja Com seus vivíssimos clarões. Anda-lhe em torno, álacre, um vivo Zumbir de insetos; pelo crivo Das folhas verdes fulge o sol; E entre cortinas viridentes, Zinem cigarras estridentes, Tecem aranhas o aranhol. Depois, a pino, o sol escalda, E a sua copa de esmeralda É como um pálio protetor, A cuja sombra, ampla e divina, Cantam as aves, em surdina, Cantos dulcíssimos de amor. Ama-a! ― toda a árvore é sagrada ― Ama esta esplêndida morada De abelhas de ouro e aves gentis! Busca entender tanta poesia, E faze coro à sinfonia Da natureza, que a bendiz! Ama-a, na glória matutina, Entre os vapores da neblina, Que toda a envolvem, como véus, Cheia dos prantos da alvorada, Ou melancólica, estampada No oiro e na púrpura dos céus... E reza então: “Bendita sejas Por tuas frondes be...

Ipês XVI. Uma Criança

UMA CRIANÇA            Graciosa e pequenina, Que lindo o seu cabelo ondeado e loiro! A mãe beija-lhe a boca purpurina,             Que a filha, essa menina,             É todo o seu tesoiro.             A graça que tem ela Unida a uma expressão mimosa e casta! Olhar em que a bondade se revela; E a meiguice, pois que para ser bela             A perfeição não basta!             No absconso pardieiro Triste, que a luz do sol jamais procura, A pobrezinha canta o dia inteiro. É como um passarito prisioneiro             Numa gaiola escura.             Como um canário canta, A sua doce voz beija e consola, E à cantiga que sai dessa garganta, O sol, um sol piedoso se levanta, Aquecendo a modesta casinhola. A santa mãe, que fervorosa ...

Ipês XV. As Aves

AS AVES A uma menina Não fugira da gaiola O sabiá, se adivinhasse Todo o pranto que te rola Pelas covinhas da face. E contudo as aves... pensa Que elas têm filhos e ninhos... Imagina a dor imensa Dos míseros passarinhos! Imagina que suplício Quando ouvem, por uma fresta Da prisão, todo o bulício Das alvoradas em festa! Prendê-las... que crueldade! As avezinhas, querida, Precisam de liberdade, Porque a liberdade é a vida. Precisam voar pelos ares, Como eu, criança, preciso Do sol desses teus olhares, Do mel desse teu sorriso. Prendê-las? Ora, avalia Se teu pai por um momento Tem a louca fantasia De encerrar-te num convento. Vamos, querida, liberta As aves! Coragem! Vamos! Deixa a portinhola aberta, Solta aqueles gaturamos; Solta esse canário esquivo Que já não sai do poleiro. É tão triste ser cativo! Tão penoso é o cativeiro! Tira a corrente de prata Dos pés desse periquito. Que nostalgia da mata Não tem ele, o pobrezito! Assim; agora é p...

Ipês XIV. Inocência

INOCÊNCIA Ao Roberto Moreira (Para o teu filhinho) Eu sei de certos senhores Que desdenham, sérios, graves, O doce aroma das flores E o terno canto das aves. Rudes, a alma empedernida, Não sei de emoção que os vença: Desconhecem ― dor imensa! ― O que há de melhor na vida. Não sabem que às vezes cura Desalentos, desenganos A buliçosa ternura De um querubim de dois anos. Nem tanta meiguice espelha O doce riso inocente De uma boquinha vermelha Que espera o primeiro dente. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 49-50. Ortografia atualizada.

Ipês XIII. À Gegê

À GEGÊ Ouve essa voz de mística doçura, A doce voz do sonho em que te agitas; Beija a legião de loiras cabecitas Que te circunda a face branca e pura. Sorri, longe da humana desventura! O berço azul-celeste em que dormitas, ― Esse ninho de rendas e de fitas ― É o paraíso, ó frágil criatura! Dorme! Não chega ao berço em que adormeces O eco da nossa vida, entrecortada De grandes mágoas e paixões refeces. Assim, dorme feliz, longe dos gritos, Longe dos ais que solta na jornada A caravana imensa dos aflitos. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 47-48. Ortografia atualizada.

Ipês XII. A Cisma do Caboclo

A CISMA DO CABOCLO A Valdomiro Silveira Cisma o caboclo à porta da cabana. Declina o sol, mas, rúbido, espadana                Ondas fulvas de luz. No terreiro, entre espigas debulhadas, Arrulham, perseguindo-se a bicadas,                Dois casais de pombinhos parirus. A criação de penas se empoleira; Come a ração no cocho da mangueira                Um velho pangaré. E uma vaca leiteira e bois de carro Pastam junto à casinha, que é de barro,                Coberta de sapé. Longe, uma tropa trota pela estrada. E a viração das matas, impregnada                De perfumes sutis, Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade, O soturno queixume de saudade                Das pombas juritis. Cisma o caboclo. Pensa na morena Que ...

Ipês XI. A Dança dos Tangarás

A DANÇA DOS TANGARÁS Na mata aromal, que é um templo, Cheio de sombra e de paz, Horas perdidas contemplo, Sobre um relvoso tapete, Esse engraçado minuete Que dançam os tangarás. Canta um sabiá na espessura A merencória canção. Limpo de nuvens, fulgura, Entre o rendilhado crivo Das árvores, o festivo Azul de um céu de verão. E, sob um teto odorante, Se aduna o bando jovial: Tem um penacho o marcante; O córrego sonolento Murmura o acompanhamento Com trinclidos de cristal. Na mata umbrosa, que é um templo, Cheio de aroma e de paz, Horas perdidas contemplo, Sobre o tapete da relva, A maravilha da selva, A dança dos tangarás. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 41-42. Ortografia atualizada.

Ipês X. Fazenda Velha

FAZENDA VELHA Neste retiro os longos dias passo, Sem alegrias e sem dissabores, Vendo as aves cruzarem-se no espaço E as paineiras vestirem-se de flores. Habito, solitário, uma vivenda De amplos salões, fantástica e sombria. Em redor, as senzalas da fazenda; Ao fundo, o vulto azul da serrania. À orla do mato virgem misterioso, No silêncio das tardes pensativas, Gemem as juritis de volta ao pouso E trilam docemente as patativas. Eu vejo, debruçando-me às janelas, Sobre a monotonia das capoeiras, Altos ipês de frondes amarelas E adustas, retorcidas perobeiras. Depois, no céu de opala se encastoa A lua merencória. E pelos campos, Por sobre as águas mortas da lagoa, Tremeluzem, bailando, os pirilampos. Há sussurros estranhos pela brenha. Fora, a noite estival fulge, tão clara Que, como em prata fosca, se desenha No píncaro de um monte uma jiçara. E eu entro. Atiço o lume de gravetos. E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores, Evoco a dança trágica dos pretos...

Ipês IX. Manhãs de Outrora

MANHÃS DE OUTRORA Antes que o sol, em pleno céu, mais quente, Esgarçasse da bruma a leve trama, Eu me quedava preguiçosamente Sob os lençóis, na tepidez da cama. Invadiam-me o quarto, pelas frestas, A doce luz pulverizada e loura, O matinal sussurro das florestas, O bulício das terras de lavoura; Gritos de apelo em prolongado entono, Carros de bois rinchando nos caminhos, A cantiga singela de um colono, A matinada estrídula dos ninhos; Ladrar de cães e vozes abafadas, Coinchos, berros, balidos, cacarejos, E, acompanhando o ritmo das enxadas, Uma triste canção de sertanejos... Depois, o sol limpava os céus nevoentos, E então, fugindo à ardência dos seus raios, Passavam para a serra, barulhentos, Taralhando febris, os papagaios. E eu pensava nas formas tão perfeitas Daquela esquiva moça veneziana, Que vira na labuta das colheitas, E amava, como um doido, há uma semana. Olhos tristes, saudosos de outros climas, A boca pequenina ― uma framboesa, Voz de cri...

Ipês VIII. De Manhã

DE MANHÃ A Godofredo Rangel Atiro para os ombros um capote, Monto a cavalo e sigo estrada afora. Ri-se, corando meigamente, a aurora, Entre nuvens de fogo e chamalote. Anda por tudo um frenesi de festa. Cindindo a bruma leve dos espaços, Vão-se trêfegos bandos de sanhaços Para o Te Deum Laudamus da floresta. Descem as caipirinhas para a fonte, Vão-se para a capina os camaradas, E há cantigas de amor, doces toadas, Num cafezal que sobe pelo monte. Penetro numa rústica vereda Junto às límpidas águas de um regato, ― Trêmula fita rútila de seda ― Que vai torcicolando pelo mato. O céu azul parece de veludo, A relva tem cambiantes de ametista, E o rio, a ponte, as perobeiras, tudo, Que pábulo divino para a vista! Encontro um caçador junto ao caminho Negaceando os “nambus”: má catadura, A tiracolo a bolsa e o polvarinho, Chapéu de palha e faca na cintura. Agora é uma paineira ressoante Da garrulice matinal dos ninhos, Em cuja fronde enorme e vicejante Há ...

Ipês VII. O Rancho

O RANCHO No trecho em que a estrada vira, Junto ao mato que farfalha, Existe um rancho de palha, Tosca habitação caipira. Dentro, as panelas, a rede De dois ganchos pendurada, Uma espingarda trochada E santos pela parede... Ao fundo, a macega esconde O ribeirão de águas claras, Onde bebem veados, e onde Há lontras e capivaras. É noite. O fogo flameja no rancho, espancando a treva, E o caboclo a voz eleva, Numa trova sertaneja. E de uma idade já morta Aspira todo o perfume, Sentado junto da porta, Olhando as chispas do lume. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 27-28. Ortografia atualizada.

Ipês VI. O Batuque

O BATUQUE Vagas constelações de pirilampos Ponteiam de oiro a densa noite escura. Há um trágico silêncio na espessura Dos matagais e na amplidão dos campos. O batuque dos negros apavora. Anda o Saci nas moitas, vagabundo, E almas penadas, almas do outro mundo, Passam gemendo pela noite em fora. Só, no ranchinho de sapé coberto, Encosto o ouvido à taipa esburacada, E ouço um curiango que soluça perto... Lambe a fogueira os últimos gravetos, E pela noite roda, magoada, A cantiga nostálgica dos pretos. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 25-26. Ortografia atualizada.

Ipês V. Serão

SERÃO Noite; silêncio lúgubre e completo. No rancho de paredes barreadas, Uma velha caipira conta ao neto Coisas de assombração e almas penadas. Correm as lagartixas pelo teto, E o pequeno, as pupilas dilatadas, Ouve a história macabra do esqueleto, Que foi visto a dançar pelas estradas. Na rede, os olhos fitos na fogueira, Uma bela morena feiticeira Sonha com sapateados e fandangos. Mas a velha se cala de repente, Porque lá fora ouviu, distintamente, Um soturno queixume de curiangos. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 23-24. Ortografia atualizada.