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Mostrando postagens de novembro, 2016

Ipês XLV. [Apêndice] Túmulo

TÚMULO Modesta cruz de pau numa clareira, Onde pipilem trêfegos sanhaços; Modesta, sim, mas que uma trepadeira, Para enfeitá-la, cinja-lhe os dois braços. E que eu repouse ali, na hospitaleira Sombra do bosque, livre de cansaços, Como quem, pelas horas da soalheira, Foge da estrada aos cálidos mormaços. Ei-lo, o túmulo simples que ambiciono Para deitar a carne fatigada, Para dormir o derradeiro sono. Como serei feliz no meu jazigo! Aves, flores, a mata embalsamada, E eu a dormir, eu a sonhar contigo... 1905 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 147-148. Ortografia atualizada.

Ipês XLIV. [Apêndice] O Cigarro

O CIGARRO Fumo um cigarro, acompanhando atento As espirais macabras da fumaça, Que sobe para o teto, e se adelgaça, E perde-se afinal pelo aposento. E enquanto ulula, fora, a voz do vento, Seguindo o rendilhado que ela traça, No coração não sei o que se passa, Mas adormeço as mágoas um momento. Oh! quantos sonhos, quantas maravilhas O perfumado fumo das Antilhas Faz-me sonhar em noites hibernais! Dá-me de novo o que eu perdido havia, Dá-me de novo os sonhos e a poesia Daqueles tempos que não voltam mais. 1902 Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 145-146. Ortografia atualizada.

Ipês XLIII. [Apêndice] Historieta

HISTORIETA Quando a alma é todo um tesouro De ilusões, de sonhos belos, Erguendo airosos castelos, Amaste um príncipe louro! Como um pajem das baladas Era esbelto e sobranceiro, Tinha a altivez de um guerreiro E usava esporas douradas. Mas tu, radiosa criança, Com ele não foste à igreja, Pois que nunca a gente alcança Aquilo que mais deseja. E eu disse num tom profundo: ─ “Oh! devaneios cruéis! São muito raros no mundo Os príncipes e os donzéis. Donzel do louro cabelo, Áureo sonho de menina, Que nunca a sorte mofina Te converta em pesadelo!” Depois, tendo o peito em lavas, Amaste furiosamente Um dandy bem diferente Do príncipe que sonhavas. Mas o “leão” que era o mais lindo Mancebo da fina roda, Morreu mais tarde vestindo Um fato fora da moda. E eu disse num tom profundo: “Amai, amai, corações! Ao mundo das ilusões Não chegam vozes do mundo. Ó peralvilho modelo, Sonho de moça e menina, Que nunca a sorte mofina Te converta em pesadelo!” Pa...