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Mostrando postagens de julho, 2016

Ipês IV. Zé da Ponte

ZÉ DA PONTE Ao Monteiro Lobato Em doce transparência cor de opala, Expira a tardezinha; o sol descamba, E o Zé da Ponte enfia-se num pala, Monta a cavalo e toca para o samba. Toca depressa, mas um loro estala, Foge-lhe o pé direito da caçamba, E o socado, com a silha um pouco bamba, Pelas ancas, precípite, resvala. E o Zé da Ponte, cabra destorcido, Peão macota, segundo a voz do povo, Para longe da sela foi cuspido. “Dianho de sorte má!” Caiu sem fala, Perdeu a pagodeira e um ponche novo, Naquela tardezinha cor de opala. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 21-22. Ortografia atualizada.

Ipês III. Meio-dia

MEIO-DIA Preso à cintura o vestido, Mostrando a perna trigueira, Junto de um ipê florido, Bate roupa a lavadeira. Sol de brasa; ouve-se o ruído Cantante da corredeira; Vozes ao longe, um latido... O baque de uma porteira. Súbito, em coro, as galinhas Cacarejam nas vizinhas Moitas de macega, embaixo. E ouve-se o guincho estridente Que no ar sossegado e quente Solta um gavião-de-penacho. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 19-20. Ortografia atualizada.

Ipês II. Nhá Carola

NHÁ CAROLA A D. Olga Arrepanhando o vestido De chita azul, nhá Carola Põe feijão na caçarola Para o almoço do marido. Dorme um cachorro estendido À porta da casinhola; Gritam galinhas-d'angola No terreiro bem varrido. Enquanto chia a panela, A moça vai à janela, A ver se o marido bem. Mas entra logo zangada, Porque na volta da estrada Não aparece ninguém. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 17-18. Ortografia atualizada.

Ipês I. Aquarela

AQUARELA A casa onde mora aquela Menina cor de açucena É uma casinha pequena, Casa de porta e janela. Tão pequenina e singela! Ao vê-la, a ideia me acena De quebrar o bico à pena E fazer uma aquarela. Pintar a casa, a colina, Mas sobretudo a menina, O ar sossegado e feliz, Dando relevo à pintura, Numa ridente moldura De cravos e bogaris. Ricardo Gonçalves Ipês , 1921, p. 15-16. Ortografia atualizada.